Sua Pele e seu Coração
estão conectados
Doenças inflamatórias crônicas da pele aumentam significativamente o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca. Entenda os mecanismos, as evidências e o que você pode fazer para proteger seu coração.
Durante décadas, doenças como psoríase e dermatite atópica foram tratadas como condições exclusivamente cutâneas. Hoje, evidências sólidas de estudos com milhões de pacientes mostram que a inflamação sistêmica gerada por essas doenças acelera a aterosclerose — o mesmo processo que causa infarto e AVC.
Zhang et al., BMC Med 2022
Conrad et al., Lancet 2022
Chen et al., JAMA Derm 2025
Berna-Rico et al., 2023
Análises de randomização mendeliana — que testam causalidade usando variantes genéticas como proxy da exposição — confirmam que a associação não é inteiramente explicada por fatores de confusão. A randomização mendeliana encontrou OR 1,03 (europeus) e 1,18 (asiáticos) para DAC com psoríase geneticamente determinada, indicando que a inflamação cutânea em si contribui para a aterogênese, independentemente dos fatores de risco tradicionais.
Os fatores de risco cardiovasculares tradicionais são significativamente mais prevalentes em pacientes com psoríase, criando uma carga de risco sinérgica:
Fonte: Kwa & Silverberg, Am J Clin Dermatol 2017. Base de dados nacional de internações, EUA.
Estudo de coorte do Reino Unido (Silverwood et al., BMJ 2018) com seguimento longo demonstrou que a DA grave e predominantemente ativa confere risco 20% maior de AVC (HR 1,22), risco 40–50% maior de IAM e angina instável, e risco 70% maior de insuficiência cardíaca. A taxa de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em DA moderada-grave foi estimada em 2,6 por 1.000 pessoas-ano em estudo de coorte de sistema integrado de saúde nos EUA.
Em contraste com a psoríase (dominada por Th1/Th17), a dermatite atópica é mediada por um perfil Th2 com elevação de IL-4, IL-13, IL-31 e IL-33. Estas citocinas contribuem para disfunção endotelial sistêmica e ativação imune crônica, embora o mecanismo aterogênico seja potencialmente menos direto que na psoríase. A ativação crônica do sistema imune, perturbação da barreira cutânea com passagem de antígenos para a circulação e disregulação do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal) por coceira crônica e privação de sono também são propostos como vias contribuidoras.
A HS é uma doença inflamatória crônica dos folículos pilosos em regiões de dobras cutâneas (axilas, virilhas, região submamária). Caracteriza-se por infiltração neutrofílica, formação de abscessos, fístulas e cicatrizes. O perfil inflamatório inclui elevação de TNF-α, IL-1β, IL-17 e IL-10. A coexistência muito frequente de obesidade (um fator tanto de risco quanto de exacerbação da HS) cria uma via metabólica-inflamatória amplificada: o tecido adiposo visceral gera TNF-α e IL-6 que sustentam a inflamação sistêmica e promovem aterogênese independentemente.
Um achado clínico relevante deste estudo é que o LEC isolado — frequentemente considerado uma forma mais benigna da doença — já confere risco cardiovascular significativamente elevado (OR 1,72 para DCVAS prevalente, HR 1,32 para incidente). Isso sugere que a inflamação imunomediada cutânea, mesmo sem comprometimento renal, hematológico ou articular do LES pleno, ativa mecanismos aterogênicos. Os autores recomendam que o LEC seja considerado um fator de risco aumentador de DCVAS, com implementação de estratégias de redução de risco cardiovascular, monitorização da pressão arterial, dosagem regular de colesterol e início de estatina em pacientes de risco intermediário.
Estudo de Conrad et al. (Lancet 2022) avaliou 19 doenças autoimunes e 12 desfechos cardiovasculares em mais de 22 milhões de indivíduos no Reino Unido. A esclerose sistêmica obteve o terceiro maior HR para DCV incidente, superado apenas por vasculites sistêmicas e síndrome antifosfolípide. Fibroação progressiva + vasculopatia + inflamação sistêmica criam uma tríade de risco cardiovascular extremo nesta doença.
A dermatomiosite associa-se a uma razão de incidência padronizada (SIR) de 2,9 para doença coronariana — quase triplicando o risco esperado. Estudos de biomarcadores demonstram ativação endotelial persistente (ICAM-1, E-selectina, von Willebrand elevados) mesmo durante remissão clínica da doença, indicando dano vascular subclínico contínuo independente da atividade muscular aparente. A miocardite é também uma manifestação direta da dermatomiosite, ocorrendo em 30–40% dos casos em séries clínicas.
Estudo espanhol (Arias-Santiago et al., Am J Med 2011) demonstrou que pacientes com líquen plano apresentam risco quase triplicado de dislipidemia (OR ajustado 2,85; IC95%: 1,33–5,09) versus controles. Estudos adicionais documentaram elevação de homocisteína e fibrinogênio nestes pacientes — dois marcadores de risco cardiovascular independentes. O mecanismo proposto envolve ativação imune mediada por linfócitos T citotóxicos e produção de TNF-α que excedem o compartimento cutâneo.
| Condição | HR para DCVAS | Fonte | Nível de evidência |
|---|---|---|---|
| Cicatrizes hipertróficas | 1,40 | Gupta et al., JDD 2025 | Moderado |
| Morfeia | 1,36 | Gupta et al., JDD 2025 | Moderado |
| Líquen escleroso | 1,30 | Gupta et al., JDD 2025 | Emergente |
Estudo transversal (Pagan et al., JDD 2023) sugere associação de rosácea e alopecia areata com doenças circulatórias, hipertensivas e arteriais. Em ambas as condições, elevações de PCR e velocidade de hemossedimentação (VHS) indicam inflamação sistêmica de baixo grau. Para rosácea, algumas análises sugerem associação com dislipidemia e doenças coronárias, possivelmente mediada por ativação de receptores Toll-like e cathelicidinas que transcendem a pele. A evidência permanece menos robusta e requer confirmação em estudos prospectivos maiores.
A inflamação crônica na pele não permanece localizada. Via circulação sistêmica, citocinas e células imunes ativadas atingem o endotélio coronariano, acelerando a aterosclerose por mecanismos múltiplos e interconectados.
TNF-α, IL-17, IL-4/13
VCAM-1↑, CXCL10↑
Dados de estudos populacionais e meta-análises de grande escala. O risco é dependente de gravidade e amplificado pela presença de comorbidades.
| Doença | Prevalência | Risco CV principal | Magnitude | Reconhecimento ACC/AHA | Evidência |
|---|---|---|---|---|---|
| Psoríase | 2–3% | DAC, IAM, DCVAS | HR 1,21 · RR 1,51 | Fator aumentador | Forte |
| Hidradenite Supurativa | ~1% | DCVAS aterosclerótica | HR 1,32 | Reconhecida | Moderada |
| LES (Lúpus Sistêmico) | 0,05–0,1% | DCVAS, TEV, AVC | HR 2,23 · OR 2,41 | Fator aumentador | Forte |
| LEC (Lúpus Cutâneo) | ~0,07% | DCVAS incidente | HR 1,32 · OR 1,72 | 2025 emergente | Moderada |
| Esclerose Sistêmica | 0,01–0,02% | DCV global | HR 3,59 | Alto risco | Forte |
| Dermatomiosite | Rara | DAC, miocardite | SIR 2,9 | Reconhecida | Moderada |
| Dermatite Atópica | 2–10% | IAM, AVC, IC | RR 1,12–1,26 | Vigilância | Moderada |
| Líquen Plano | ~1% | Dislipidemia, CV | OR 2,85 dislipi. | Emergente | Limitada |
| Rosácea / Alopecia Areata | 2–5% / 2% | Hipertensão, arterial | Associação moderada | Emergente | Limitada |
Diretrizes do ACC/AHA (2023), AAD-NPF (2019) e AACE (2025) convergem em recomendar avaliação cardiovascular ativa em pacientes com doenças inflamatórias de pele — especialmente nas formas moderadas a graves.
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Pressão arterial — Medição na consulta inicial e pelo menos anual. Em psoríase, a gravidade da doença de pele correlaciona-se com os níveis de IL-17A que modulam o sistema renina-angiotensina. A meta pressórica deve seguir as diretrizes vigentes (<130/80 mmHg para a maioria dos pacientes com alto risco CV).
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Perfil lipídico completo — Na consulta inicial e a cada 1–2 anos (ou após mudança de tratamento sistêmico). Considerar também ApoB ou LDL-P (partículas de LDL) em psoríase grave, pois HDL funcional pode estar comprometido com níveis aparentemente normais.
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Glicemia de jejum e HbA1c — Na consulta inicial e pelo menos anual. O risco de diabetes é dose-dependente da gravidade da psoríase e amplificado pela artrite psoriásica. Em LEC/LES com uso de corticosteroides, monitorização de glicemia é mandatória.
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Índice de massa corporal e circunferência abdominal — A obesidade (especialmente visceral) amplifica o estado inflamatório via adipocinas (TNF-α, IL-6) e agrava a resposta a biológicos. Cada 5 kg/m² de IMC aumenta em 23–31% os odds de doença psoriásica (randomização mendeliana).
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Tabagismo — Avaliação e cessação ativa. OR de DCV em psoríase + tabagismo chega a 2,55 em registros chineses. Tabagismo é fator de risco tanto para HS quanto para DCV, sendo intervenção de alto impacto e baixo custo.
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Cálculo do risco cardiovascular em 10 anos — Utilizar calculadora validada (Pooled Cohort Equations para populações ocidentais; Framingham para risco absoluto). Em psoríase moderada-grave ou artrite psoriásica: multiplicar o escore calculado por 1,5 (diretrizes AAD-NPF). Em LES: considerar modelos específicos como o QRISK3 que incorpora autoimunidade.
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Escore de cálcio coronariano (CAC) — Considerar em pacientes de risco intermediário para reclassificação. CAC em psoríase moderada-grave é equivalente ao de pacientes diabéticos. Útil para motivar tratamento preventivo e qualificar a indicação de estatinas.
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Atividade física e dieta — Exercício aeróbico regular reduz o índice PASI em psoríase além de reduzir risco CV. Dieta mediterrânea associa-se a menor inflamação sistêmica, melhor controle do eczema e redução de eventos cardiovasculares em estudos observacionais.
Uma das questões mais relevantes da dermatologia moderna: os novos tratamentos sistêmicos aumentam o risco cardiovascular? A evidência atual — acumulada em dezenas de RCTs e grandes estudos de vida real — oferece respostas mais tranquilizadoras do que alarmantes, mas com nuances importantes.
Meta-análise de rede (Mattay et al., Clin Gastroenterol Hepatol 2024) avaliando 40 estudos com 126.961 pacientes com doenças inflamatórias imunomediadas encontrou que anti-TNF-α (OR 2,49), inibidores de JAK (OR 2,64) e anti-IL-12/23 (OR 3,15) associaram-se a maior MACE versus placebo — contudo, as magnitudes não diferiram significativamente entre classes, e o efeito pode refletir maior atividade da doença (e portanto maior risco basal) nos grupos alocados a terapias ativas. Em estudos comparativos cabeça a cabeça em artrite psoriásica, inibidores de JAK não apresentaram maior risco cardiovascular versus inibidores de TNF ou IL-17 em 3 anos (HR 0,977 vs. TNFi).
45 referências primárias. Estudos principais incluem meta-análises, RCTs, coortes populacionais e randomização mendeliana publicados em JAMA, Lancet, NEJM, JACC, BMJ e periódicos especializados.
- 1Psoriasis and Cardiovascular Disease Risk in European and East Asian Populations: Evidence From Meta-Analysis and Mendelian Randomization
- 2Evaluating the Risk of Atherosclerotic Cardiovascular Disease in Inflammatory Skin Disease: Insights From a TriNetX Cohort Study
- 3Association Between Inflammatory Skin Disease and Cardiovascular and Cerebrovascular Co-Morbidities in US Adults
- 4From the Medical Board of the NPF: The Risk of Cardiovascular Disease in Individuals With Psoriasis
- 5Psoriasis
- 6Cardiovascular Risk in Patients With Psoriasis: JACC Review Topic of the Week
- 7Atopic Eczema and Major Cardiovascular Outcomes: A Systematic Review and Meta-Analysis
- 8Severe and Predominantly Active Atopic Eczema in Adulthood and Long Term Risk of Cardiovascular Disease
- 9Rates of Cardiovascular Events Among Patients With Moderate-to-Severe Atopic Dermatitis in an Integrated Health Care System
- 10AAD Guidelines: Awareness of Comorbidities Associated With Atopic Dermatitis in Adults
- 11Cardiovascular Disease-Associated Skin Conditions
- 12Incidence and Prevalence of Atherosclerotic Cardiovascular Disease in Cutaneous Lupus Erythematosus
- 13Autoimmune Diseases and Cardiovascular Risk: A Population-Based Study on 19 Autoimmune Diseases and 12 Cardiovascular Diseases in 22 Million Individuals
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- 15Biomarker Profiles of Endothelial Activation and Dysfunction in Rare Systemic Autoimmune Diseases
- 16Homocysteine and Other Cardiovascular Risk Factors in Patients With Lichen Planus
- 17Cardiovascular Risk Factors in Patients With Lichen Planus
- 18Elevated Atherosclerotic Cardiovascular Disease Risk in Fibrotic Skin Diseases: Insights From a TriNetX Cohort Study
- 19Cross-Sectional Study of Psoriasis, Atopic Dermatitis, Rosacea, and Alopecia Areata Suggests Association With Cardiovascular Diseases
- 20Psoriasis and Cardiovascular Diseases: An Immune-Mediated Cross Talk?
- 21The Role of the IL-23/Th17 Pathway in Cardiometabolic Comorbidity Associated With Psoriasis
- 22Thrombosis in Psoriasis: Cutaneous Cytokine Production as a Potential Driving Force of Haemostatic Dysregulation
- 23Joint AAD-NPF Guidelines of Care for Management of Psoriasis With Awareness and Attention to Comorbidities
- 24Association Between Psoriatic Disease and Lifestyle Factors and Comorbidities: Cross-Sectional Analysis and Mendelian Randomization
- 25New Frontiers in Psoriatic Disease Research, Part II: Comorbidities and Targeted Therapies
- 26Cardiovascular Comorbidities Among Patients With Psoriasis: A National Register-Based Study in China
- 27Eczema and Cardiovascular Risk Factors in 2 US Adult Population Studies
- 28Association Between Psoriasis and Cardiometabolic Comorbidities in a Racially and Ethnically Diverse Low-Income Primary Care Population
- 29ACC/AHA/ASE 2023 Multimodality Appropriate Use Criteria for Detection and Risk Assessment of Chronic Coronary Disease
- 30AACE Consensus Statement: Algorithm for Management of Adults With Dyslipidemia — 2025 Update
- 31Using Guidelines of Care to Lower Cardiovascular Risk in Patients With Psoriasis
- 32Pathophysiology, Clinical Presentation, and Treatment of Psoriasis: A Review
- 332022 TDA/TAPSI/TSOC Joint Consensus for Psoriatic Disease With Attention to Cardiovascular Comorbidities
- 34Cardiovascular Screening Practices and Statin Prescription in Patients With Psoriasis
- 35Analysis of Specialist and Patient Perspectives on Strategies to Improve Cardiovascular Disease Prevention Among Persons With Psoriatic Disease
- 36How to Manage Cardiovascular Disease in Psoriatic Disease: Evidence and Time Management in Clinic
- 37Cardiovascular and Venous Thromboembolic Risk With JAK Inhibitors in Immune-Mediated Inflammatory Skin Diseases: A Systematic Review and Meta-Analysis
- 38Short-Term Cardiovascular Complications in Dermatology Patients Receiving JAK-STAT Inhibitors: A Meta-Analysis of RCTs
- 39Real-World Safety of JAK Inhibitors in Skin Immune-Mediated Inflammatory Diseases: Boxed Warning Outcomes
- 40Cardiovascular and Thromboembolic Risks of JAK Inhibitors in Atopic Dermatitis: A Global Cohort Study
- 41Atopic Dermatitis
- 42Risk of Major Adverse Cardiovascular Events in Immune-Mediated Inflammatory Disorders on Biologics and Small Molecules: Network Meta-Analysis
- 43Comparative Safety of JAK Inhibitors Versus TNF or IL-17 Inhibitors for CVD and Cancer in Psoriatic Arthritis and Axial SpA
- 44Cardiovascular Considerations and Implications for Treatment in Psoriasis: An Updated Review
- 45Cardiodermatology: The Heart of the Connection Between the Skin and Cardiovascular Disease