Doenças Hepáticas e Risco Cardiovascular
Guia baseado em evidências sobre os mecanismos fisiopatológicos, dados epidemiológicos, avaliação de risco e manejo clínico do paciente com doença hepática crônica e risco cardiovascular aumentado. Conteúdo atualizado com diretrizes AASLD, ESC, ACC/AHA e literatura de 2024–2026.
O Eixo Hepático-Cardiovascular
O fígado e o coração estão intimamente conectados por vias metabólicas, inflamatórias, hemodinâmicas e imunológicas, formando um eixo bidirecional fígado-coração central na patogênese das doenças cardiovasculares (DCV) em pacientes com hepatopatia crônica. Mecanismos compartilhados incluem inflamação sistêmica, resistência à insulina, dislipidemia aterogênica, estresse oxidativo, disfunção endotelial e disbiose intestinal.
A MASLD (Metabolic dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease), anteriormente NAFLD, é o exemplo paradigmático do eixo hepático-cardiovascular. A esteatose hepática e a esteato-hepatite promovem liberação de citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6, hsCRP) que circulam sistemicamente e contribuem para lesão vascular e formação de placas.
Mecanismo central da dislipidemia aterogênica na MASLD
A resistência à insulina — marca registrada da MASLD — prejudica o metabolismo da glicose e aumenta a produção hepática de VLDL e triglicerídeos, resultando em perfil lipídico altamente aterogênico: triglicerídeos elevados, LDL pequeno e denso e HDL reduzido. Targher et al. (NEJM 2010) documentaram detalhadamente como a adiposidade visceral expandida, combinada com necroinlamação hepática, impulsiona a liberação sistêmica de fatores pró-aterogênicos.
Papel crítico da fibrose
A gravidade da fibrose hepática tem correlação direta com aterosclerose subclínica e mortalidade cardiovascular. Cada estágio de progressão da fibrose representa um aumento incremental e independente no risco CV — sublinhando a importância da estadiamento da fibrose na estratificação de risco cardiovascular, e não apenas na hepatologia.
Disfunção endotelial amplificada
Além dos mecanismos inflamatórios, ADMA elevada e hiperhomocisteinemia comprometem a vasodilatação mediada por fluxo e potencializam o estresse oxidativo vascular. A disfunção endotelial precede em anos os eventos cardiovasculares clínicos e pode ser detectada por ultrassonografia da artéria braquial ou medição de espessura íntima-média carotídea.
Cardiomiopatia alcoólica
O consumo excessivo e crônico de álcool leva à cardiomiopatia alcoólica, caracterizada por morfologia ventricular esquerda dilatada, aumento da massa do VE e disfunção sistólica. Os mecanismos principais incluem estresse oxidativo direto do acetaldeído sobre cardiomiócitos, disfunção mitocondrial com prejuízo do metabolismo energético e comprometimento do manuseio do cálcio intracelular — resultando em contratilidade reduzida e remodelamento adverso.
Fibrose atrial e fibrilação atrial
O álcool induz fibrose do miocárdio atrial por ativação de fibroblastos e produção de TGF-β. Essa fibrose, somada à desregulação neurohormonal (ativação do SRAA e sistema simpático), cria substrato para reentrada e fibrilação atrial. A relação dose-resposta entre consumo de álcool e FA é bem estabelecida — mesmo quantidades moderadas aumentam o risco em populações suscetíveis.
Holiday Heart Syndrome
Taquiarritmias supraventriculares transitórias precipitadas por episódios agudos de consumo excessivo de álcool — classicamente após feriados ou festividades. O mecanismo envolve instabilidade eletrofisiológica aguda por toxicidade direta do etanol e acetaldeído, hipocalemia e hipomagnesemia associadas e desequilíbrio autonômico com predominância simpática durante a embriaguez e vagotonia no rebote.
Mecanismos indiretos
Além dos efeitos cardíacos diretos, a DHA contribui para hipertensão arterial sistêmica (ativação do SRAA, aumentode aldosterona), dislipidemia (hipertrigliceridemia aguda), resistência à insulina e inflamação sistêmica — todos amplificadores do risco cardiovascular.
Inflamação crônica e lesão endotelial
A infecção crônica pelo vírus da hepatite C (HCV) induz um ambiente inflamatório sistêmico e pró-fibrogênico com lesão endotelial crônica e aceleração da aterosclerose. O HCV infecta diretamente células endoteliais e macrófagos vasculares, além de promover geração de células espumosas e instabilidade de placa por mecanismos imunomediados.
Resistência à insulina e diabetes tipo 2
O HCV promove resistência à insulina por mecanismos dependentes da proteína NS5A viral e ativação do receptor de insulina. O diabetes tipo 2 resultante amplifica exponencialmente o risco cardiovascular — e a resolução da infecção viral por antivirais de ação direta (AAD) melhora o controle glicêmico.
Papel causal da erradicação viral
A erradicação viral com AAD reduz significativamente o risco cardiovascular, reforçando a causalidade entre HCV e DCV. Cacoub e Saadoun (NEJM 2021) demonstraram que a resposta virológica sustentada se associa a redução de eventos cardiovasculares maiores. Este dado tem implicações clínicas diretas: o tratamento do HCV não é apenas hepatológico, mas também uma intervenção cardiovascular.
Estado circulatório hiperdinâmico
A cirrose, independentemente da etiologia, altera profundamente a fisiologia cardiovascular por meio de um estado circulatório hiperdinâmico: débito cardíaco aumentado (com redução progressiva na doença avançada), resistência vascular sistêmica diminuída por vasodilatação esplâncnica mediada por óxido nítrico e serotonina, e expansão do volume plasmático. Este estado paradoxalmente sobrecarrega o coração apesar da vasodilatação periférica.
Cardiomiopatia cirrótica
Definida por disfunção sistólica e diastólica e anormalidades eletrofisiológicas (prolongamento do QT), frequentemente não identificada em repouso mas desmascarada durante estresse — como infecções, procedimentos ou transplante. O diagnóstico requer ecocardiografia sob estresse e dosagem de BNP/NT-proBNP. O intervalo QTc prolongado prediz mortalidade na cirrose.
Paradoxo trombótico-hemorrágico
A cirrose reequilibra o sistema hemostático em nível mais baixo — redução de fatores pró-coagulantes e anticoagulantes naturais — mas esse equilíbrio é instável e pode pender para trombose (TVP, trombose de veia porta, TEP) ou hemorragia (varizes, CIVD). O risco de tromboembolismo venoso está aumentado em 2 vezes; o risco de AVC isquêmico em 1,7 vezes; porém o IAM tem risco paradoxalmente reduzido em cirróticos compensados.
Impacto na mortalidade pós-evento
A mortalidade após eventos trombóticos é dramaticamente maior em cirróticos: mortalidade em 90 dias após IAM de 27% vs. 5% em controles (Jepsen et al., Hepatology 2021). Este dado deve influenciar diretamente as decisões terapêuticas — menor capacidade de tolerar o tratamento padrão, maior risco de sangramento, menor margem de segurança.
As doenças autoimunes e colestáticas hepáticas (hepatite autoimune, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária) associam-se a risco cardiovascular aumentado primariamente através de inflamação sistêmica crônica e desregulação imunológica. A função leucocitária aberrante e citocinas pró-inflamatórias são centrais tanto para a autoimunidade quanto para a aterogênese.
Nas colestases, a acumulação de ácidos biliares contribui para toxicidade vascular direta e o colesterol HDL sofre modificações funcionais que comprometem o transporte reverso de colesterol. A terapia imunossupressora crônica (corticosteroides, calcineurin inhibitors) amplifica ainda mais os distúrbios metabólicos — hipertensão, dislipidemia e diabetes — criando um ciclo de risco cardiovascular acelerado.
Um estudo de coorte de base populacional com 22 milhões de indivíduos no Reino Unido (Conrad et al., Lancet 2022) demonstrou que pacientes com doenças autoimunes têm risco 1,4 a 3,6 vezes maior de desenvolver DCV, com risco crescente com o número de doenças autoimunes concomitantes e particularmente elevado em jovens com menos de 45 anos.
Magnitude do Risco Cardiovascular por Doença Hepática
A evidência epidemiológica para risco cardiovascular aumentado em todas as doenças hepáticas prevalentes é robusta e consistente, derivada de meta-análises com milhões de indivíduos e coortes histológicas nacionais. Os dados abaixo apresentam estimativas de risco quantitativas por doença.
(IC 95%: 1,31–1,61)
fibrose avançada
(IC 95%: 1,68–3,72)
(IC 95%: 1,56–1,70)
cirrose por MASLD
(IC 95%: 1,77–2,61)
Coorte nacional com casos de NAFLD com biópsia confirmada seguidos por décadas. Incidência de MACE: 24,3 vs. 16,0 por 1.000 pessoas-ano em controles pareados. A incidência aumenta progressivamente com a gravidade histológica — desde esteatose simples até cirrose. O dado fundamental é que mesmo a esteatose simples sem NASH confere risco aumentado, descartando a noção prévia de que apenas NASH e fibrose importavam para o risco CV.
| Estágio histológico | HR ajustado para MACE | IC 95% | Nível de evidência |
|---|---|---|---|
| Esteatose simples (sem NASH) | 1,52 | 1,45–1,59 | Forte |
| NASH sem fibrose avançada | 1,63 | 1,55–1,71 | Forte |
| Fibrose avançada (F3–F4) | 1,92 | 1,79–2,07 | Forte |
| Cirrose por MASLD | 2,15 | 1,77–2,61 | Forte |
vs. controles
(IC 95%: 1,6–3,8)
fatores cardiometabólicos
(IC 95%: 2,14–4,39)
fatores cardiometabólicos
(IC 95%: 2,11–6,47)
(IC 95%: 1,03–1,40)
cerebrovasculares
(IC 95%: 1,00–1,82)
| Evento trombótico | HR ajustado | IC 95% | Particularidade |
|---|---|---|---|
| Tromboembolismo venoso | 2,0 | 1,5–2,6 | Risco dobrado mesmo com INR elevado |
| AVC isquêmico | 1,7 | 1,3–2,3 | Paradoxo: INR elevado não protege |
| IAM (cirrose compensada) | 0,7 | 0,5–0,9 | Risco reduzido — mas mortalidade 27% em 90d |
| IAM (cirrose descompensada) | >1 | — | Risco aumenta na descompensação |
com MASLD
(IC 95%: 1,43–3,78)
em jovens
(IC 95%: 1,96–14,19)
1.000 pessoas-ano
(vs. 0,9 em controles)
Avaliação do Risco Cardiovascular na Hepatopatia
A estratificação do risco cardiovascular em pacientes com doença hepática requer integração de calculadoras de risco tradicionais com biomarcadores e imagem específicos do fígado. Nenhuma ferramenta isolada é suficiente — a combinação é mandatória.
| Faixa FIB-4 | Interpretação | Probabilidade de fibrose avançada | Conduta |
|---|---|---|---|
| < 1,30 | Baixo risco de fibrose | VPN ~90% | Reavaliação em 1–3 anos se fatores de risco persistem |
| 1,30 – 2,67 | Zona cinzenta / indeterminado | — | Elastografia transiente (VCTE) para reclassificação |
| > 2,67 | Alto risco de fibrose avançada | VPP ~65–80% | Encaminhamento a hepatologista + elastografia |
Escores de FIB-4 mais elevados associam-se a maior prevalência e gravidade de doença arterial coronariana na MASLD. Tapper e Parikh (JAMA 2023) recomendam FIB-4 como ferramenta de triagem de primeira linha, com papel tanto hepatológico quanto cardiovascular.
| LSM (kPa) | Correlação histológica | Especificidade para cirrose |
|---|---|---|
| < 7,9 | F0–F1 (fibrose ausente/mínima) | — |
| 7,9 – 9,6 | F2 (fibrose moderada) | — |
| 9,7 – 14,9 | F3 (fibrose avançada) | — |
| ≥ 15,0 | F4 (cirrose) | 95,5% |
Rigidez hepática elevada associa-se independentemente a maior risco de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença arterial coronariana — mesmo após ajuste para fatores de risco tradicionais. Boeckmans et al. (Liver International 2023) revisaram sistematicamente o papel da LSM como marcador cardíaco. A VCTE é, portanto, simultaneamente uma ferramenta hepatológica e cardiovascular.
O modelo LIVER-ASCVD+ integra biomarcadores hepáticos específicos (FIB-4, ALT, AST, plaquetas) ao ASCVD Risk Estimator Plus tradicional para pacientes com MASH confirmada por biópsia. Demonstrou AUC de 0,68 para predição de IAM/AVC vs. AUC 0,63 do ASCVD padrão — melhora clinicamente significativa de 8% na discriminação (Hegstrom et al., CMRO 2026).
Esta ferramenta ainda aguarda validação externa em populações brasileiras e latinas, mas representa a direção futura da integração hepatológica-cardiovascular na estratificação de risco.
O mapeamento T1 corrigido por ferro (cT1) por RM hepática mostrou associação independente com eventos cardiovasculares maiores no UK Biobank (Roca-Fernandez et al., J Hepatol 2023):
(IC 95%: 1,03–1,26)
(IC 95%: 1,12–1,51)
(IC 95%: 1,09–1,56)
O cT1 captura fibrose hepática, inflamação e esteatose em uma única medida quantitativa, posicionando-se como biomarcador de imagem multiparamétrico cardiovascular.
Park et al. (Scientific Reports 2024) compararam a sensibilidade dos scores não invasivos para predição de mortalidade cardiovascular em pacientes com fibrose hepática de alto risco:
| Score | Sensibilidade (mortalidade CV) | Especificidade |
|---|---|---|
| SAFE Score | 73,3% | — |
| FIB-4 | 29,6% | — |
| NAFLD Fibrosis Score | 21,3% | — |
O SAFE Score demonstra superioridade expressiva no desfecho cardiovascular específico — contudo necessita de maior validação antes de substituir o FIB-4 como ferramenta de triagem de primeira linha.
Tratamento Cardiovascular na Doença Hepática
O manejo farmacológico do risco cardiovascular em pacientes hepatopatas exige conhecimento de segurança hepática, interações medicamentosas e limitações de evidência por grau de disfunção hepática. Nenhuma droga deve ser descontinuada sem avaliação cuidadosa do balanço risco-benefício.
| Contexto hepático | Recomendação | Monitoramento | Fonte |
|---|---|---|---|
| MASLD/NASH (sem cirrose) | Recomendado | ALT/AST basal e em 3–6 meses | AASLD 2023 |
| Cirrose compensada (Child-Pugh A) | Seguro — indicar | Monitoramento hepático periódico | AASLD 2023, AHA 2019 |
| Cirrose descompensada (Child B/C) | Contraindicado — dados limitados | — | ADA 2026 |
| Hepatite aguda / transaminases >3× LSN | Contraindicado (temporariamente) | Reavaliar após normalização | AHA Scientific Statement 2019 |
Quando a monoterapia com estatina não atinge metas lipídicas: combinação com ezetimiba, inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe), inclisirana, ácido bempedoico (aprovado FDA para redução de LDL-C em adultos com hipercolesterolemia primária ou DCV estabelecida que não toleram estatinas), fibratos ou icosapent etil pode ser considerada — sempre com avaliação da função hepática.
| DOAC | Child-Pugh A | Child-Pugh B | Child-Pugh C | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Apixabana | Seguro | Razoável | Evitar | Sem aumento significativo de exposição em CHP-B |
| Dabigatrana | Seguro | Razoável | Evitar | Eliminação renal predominante — cuidado na DRC |
| Rivaroxabana | Seguro | Evitar | Contraindicado | ↑ 2,27× exposição em CHP-B — risco hemorrágico |
| Edoxabana | Seguro | Cautela | Evitar | Dados limitados em hepatopatia moderada |
| Varfarina | Possível | Difícil controle | Contraindicado | INR não confiável — coagulopatia hepática confunde monitoramento |
Os antivirais de ação direta (AADs) para HCV produzem interações farmacocinéticas clinicamente significativas com fármacos cardiovasculares. O mecanismo central envolve inibição dos transportadores hepáticos de captação OATP1B1/1B3, aumentando a exposição sistêmica a estatinas e dabigatrana.
| Regime de AAD | Taxa de contraindicação com CV | Perfil de interação |
|---|---|---|
| Sofosbuvir/Velpatasvir | 1,4% | Menor perfil de interação — preferível quando minimizar interações é prioritário |
| Glecaprevir/Pibrentasvir | 12,8% | Inibe OATP1B1/1B3 fortemente — ↑ rosuvastatina, atorvastatina e dabigatrana |
| SOF/VEL/VOX (pan-genotípico) | 16,6% | Maior taxa de contraindicações — avaliação farmacológica mandatória |
Manejo em Contextos Clínicos Específicos
Populações pediátricas, gestantes, imunossuprimidos e pacientes com cirrose descompensada requerem abordagens individualizadas, dados os diferentes perfis de risco, limitações de evidência e necessidades de cuidado multidisciplinar.
Até 1/3 das crianças com NAFLD confirmada por biópsia apresenta pressão arterial elevada, e metade tem hipertrigliceridemia clinicamente acionável. Modificações estruturais cardiovasculares — espessura íntima-média carotídea aumentada e massa ventricular esquerda elevada — são documentadas mesmo após ajuste para obesidade.
A modificação do estilo de vida é a pedra angular: redução ponderal de 7–10% melhora esteatose, NASH e perfil metabólico. Farmacoterapia em crianças é limitada — vitamina E e metformina têm evidência modesta; GLP-1 RAs (liraglutida, semaglutida) estão sendo estudados em adolescentes.
O risco de MACE em jovens com NASH (HR 5,27) impõe triagem cardiovascular precoce — rastreamento de fatores de risco CV desde o diagnóstico, com acompanhamento anual de PA, perfil lipídico e glicemia.
A MASLD é a hepatopatia crônica mais prevalente na gravidez, com crescimento de 2,5 vezes na última década. Requer aconselhamento pré-concepcional, manejo multidisciplinar e colaboração obstétrica precoce.
Vigilância endoscópica para varizes deve ser realizada no ano antes da gravidez. Beta-bloqueadores são seguros para profilaxia primária durante a gravidez. MELD score antenatal ≥10 tem sensibilidade e especificidade de 83% para predição de descompensação hepática gestacional.
Estatinas são contraindicadas na gravidez (categoria X). GLP-1 RAs devem ser suspensos ao planejar gestação. A hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia têm maior prevalência em mulheres com MASLD e hepatopatia crônica — monitoramento rigoroso de PA é mandatório.
Em pacientes imunossuprimidos — tanto portadores de doenças autoimunes hepáticas quanto receptores de transplante — a inflamação sistêmica crônica e as terapias imunossupressoras (corticosteroides, inibidores de calcineurina como tacrolimus e ciclosporina) amplificam distúrbios metabólicos: hipertensão, dislipidemia e diabetes de nova instalação pós-transplante (NODAT).
Complicações cardíacas são atualmente a principal causa de morbimortalidade em receptores de transplante hepático — superando infecções e rejeição. A avaliação cardíaca pré-transplante é obrigatória mas varia amplamente entre centros.
No HCV pós-transplante, a erradicação viral com AADs reduz o risco cardiovascular mesmo nessa população — tornando o tratamento antiviral uma prioridade cardiológica além de hepatológica.
A insuficiência hepática aguda sobre crônica (ACLF) representa o pior cenário do manejo cardiológico: alta mortalidade, dados cardiovasculares escassos e extrapolação de cuidados intensivos gerais sem evidência específica.
O impacto aditivo de comorbidades na cirrose é substancial: HR de 2,5 com uma comorbidade até 4,52 com três (Asrani et al., AJG 2022). Calculadoras de risco CV tradicionais têm acurácia incerta — o LDL-C normaliza pela falência sintética.
Estatinas: a AASLD recomenda uso apenas com monitoramento cuidadoso em descompensados com alto risco CV em avaliação para transplante. Beta-bloqueadores e SRAA: podem precipitar síndrome hepatorrenal — decisão individualizada. Anticoagulação: o paradoxo hemostático impõe avaliação funcional (TEG/ROTEM) além do INR.
| Doença Hepática | Risco CV relativo | Causa principal de morte | Estatina | GLP-1/SGLT2i | DOAC (FA) | Prioridade de rastreio |
|---|---|---|---|---|---|---|
| MASLD sem fibrose | HR 1,52 | DCV (40–45%) | Indicada | Se obeso/DM/DCV | DOAC padrão | ASCVD + FIB-4 anual |
| MASH / fibrose F2–F3 | HR ~1,9 | DCV + hepática | Indicada | Indicado / Resmetirom | DOAC padrão | ASCVD + VCTE + ecocardio |
| Cirrose compensada (CHP-A) | HR 2,15 | DCV + IC hepatocardíaca | Segura — indicar | Dados limitados | Apixabana/Dabigatrana | VCTE + Echo + BNP |
| Cirrose descompensada (CHP-B/C) | Muito alto | Hepática + CV | Evitar/Contraindicada | Contraindicado | Rivaroxabana: evitar | TEG + Echo stress + MDT |
| DHA | RR 2,4 morte CV | DCV + hepática | Segura se compens. | Cautela | Por grau CHP | ASCVD + ECG + ecocardio |
| HCV crônico | OR 1,20 CV | Hepática + DCV | Indicada | Se elegível | DOAC padrão | Tratar HCV (↓ risco CV) |
| Doenças autoimunes/colestáticas | RR 1,4–3,6 | DCV | Indicada | Se elegível | Por grau CHP | ASCVD + perfil metabólico |
Cuidado Multidisciplinar e Direções Futuras
As recomendações mais recentes (2024–2026) enfatizam uma mudança de paradigma: do manejo isolado por órgão para modelos integrados, centrados no paciente, com equipes multidisciplinares e framings sistêmicos como o espectro CKM (Cardiovascular-Kidney-Metabolic).
A integração da MASLD/MASH ao espectro CKM (Cardiovascular-Kidney-Metabolic Health) posiciona a disfunção hepática como componente central de uma doença sistêmica cardiometabólica — não uma entidade isolada. Esse framework estimula:
Triagem transversal: paciente com DM tipo 2 deve ser triado para MASLD (FIB-4), DRC (TFGe + albuminúria) e DCV (ASCVD) simultaneamente. A presença de qualquer componente deve elevar o escrutínio para os demais.
Terapias de impacto multiorgânico: GLP-1 RAs e SGLT2i são exemplos de drogas que simultaneamente beneficiam fígado, rim e coração — representando o ideal terapêutico para esse espectro.
Zannad et al. (JACC 2026) propõem designs de ensaios clínicos multi-órgãos — basket trials e plataformas — para desenvolver terapias holísticas para doenças interconectadas, reconhecendo que ensaios de órgão único são insuficientes para capturar o benefício total.
Coração
DCV, IC, FA
Obesidade Visceral
Resistência insulínica
Fígado
MASLD, MASH, Cirrose
Rim
DRC, albuminúria
Metabolismo
DM2, dislipidemia
A reabilitação cardíaca está sendo reconhecida como uma oportunidade para redução proativa do risco cardiometabólico em pacientes com MASLD — não apenas após eventos cardíacos, mas também naqueles com fibrose ou DM tipo 2 como prevenção primária cardiovascular e hepática.
Benefícios documentados do exercício estruturado na MASLD incluem: redução de esteatose (independente de perda ponderal), melhora da sensibilidade à insulina, redução de ALT, melhora da disfunção diastólica e redução de peptídeos natriuréticos. A meta de perda ponderal de 7–10% produz benefícios incrementais em esteatose, inflamação e fibrose.
Referências Bibliográficas
64 referências selecionadas, priorizando diretrizes e estudos publicados entre 2021–2026. Classificação por nível de evidência indicada.
- 1Decoding the Liver-Heart Axis in Cardiometabolic Diseases
- 2The Heart-Brain-Metabolism Axis in Cardiovascular and Neurologic Disease
- 3Shared Mechanisms Between Cardiovascular Disease and NAFLD
- 4NAFLD and Cardiovascular Disease: A Review of Shared Cardiometabolic Risk Factors
- 5Altered Lipid Metabolism and Electronegative LDL in NAFLD and CVD
- 6NAFLD, and Cardiovascular and Cardiac Diseases: Factors Influencing Risk, Prediction and Treatment
- 7NAFLD and Cardiovascular Risk: A Scientific Statement From the AHA Forte
- 9NAFLD And the Heart: JACC State-of-the-Art Review
- 10Risk of Cardiovascular Disease in Patients with NAFLD Forte
- 11MASLD and Cardiovascular Risk: A Comprehensive Review
- 12Understanding MASLD — From Molecular Pathogenesis to Cardiovascular Risk
- 13MASLD: A Systemic Metabolic Disorder With Cardiovascular and Malignant Complications
- 14MASLD and Cardiovascular Disease: New Perspectives
- 15Alcohol and Cardiovascular Disease
- 16Cardiac Manifestations in Alcoholic Liver Disease
- 17Extrahepatic Manifestations of Chronic HCV Infection Forte
- 18Cardiovascular Risk and Lipidemic Phenotype in Liver Disease by Etiology
- 19Prevalence and Risk Factors of CVD in Patients With Chronic Hepatitis B
- 20Liver Cirrhosis (Review) Forte
- 21Cirrhotic Cardiomyopathy
- 22Diagnosis and Management of Cirrhosis and Its Complications: A Review Forte
- 23Autoimmune Diseases and Atherosclerotic Cardiovascular Disease
- 24Autoimmune Diseases and Cardiovascular Risk: 22 Million Individuals in the UK Forte
- 25NAFLD and Risk of Fatal and Non-Fatal CV Events: Meta-Analysis (36 estudos, 5,8M) Forte
- 26NAFLD and Incident MACE: Nationwide Histology Cohort (Suécia) Forte
- 27Adverse Liver Outcomes, CV Events, and Mortality in Steatotic Liver Disease (341.601 adultos) Forte
- 28Cardiovascular Outcomes in Patients With Biopsy-Proven Alcohol-Related Liver Disease
- 29Extra-Hepatic Morbidity and Mortality in Alcohol-Related Liver Disease: Meta-Analysis
- 30Liver, CV and Infectious Outcomes in Alcohol-Associated Liver Disease With Cardiometabolic Risk Factors
- 31Risk and Outcome of Venous and Arterial Thrombosis in Patients With Cirrhosis: Danish Nationwide Cohort Forte
- 32CVD Risk in Paediatric and Young Adult NAFLD Forte
- 33AASLD Practice Guidance on NAFLD Diretriz
- 34Quality Standards for NAFLD Management: BASLD/BSG Consensus
- 35Interdisciplinary Perspectives on Co-Management of MASLD and Coronary Artery Disease Diretriz
- 36Liver Stiffness as a Cornerstone in Heart Disease Risk Assessment
- 37Improving CV Risk Prediction in Metabolic Liver Disease With a Novel Biomarker-Enhanced Model (LIVER-ASCVD+)
- 38Liver Disease Is a Significant Risk Factor for CV Outcomes — UK Biobank Study Forte
- 39Comparative Non-Invasive Tests for Risk Stratification for Cause-Specific Mortality in Hepatic Fibrosis
- 40Statin Safety and Associated Adverse Events: AHA Scientific Statement Diretriz
- 41Comprehensive Medical Evaluation and Assessment of Comorbidities: Standards of Care in Diabetes-2026 Diretriz
- 43Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Health: An Actionable Vision for Heart Failure Prevention
- 44The Basics of MASLD for Cardiologists: Pathophysiology, Diagnosis, and Treatment Revisão JACC
- 45AACE Clinical Practice Guideline for NAFLD: Co-Sponsored by AASLD
- 462023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for Atrial Fibrillation Diretriz
- 47Cardiovascular Risk Management and Hepatitis C: Combining Drugs
- 48Mechanisms and Clinical Significance of PK Drug Interactions Mediated by HCV Direct-Acting Antivirals
- 49Potential Interactions Between Pangenotypic DAAs and Cardiovascular Therapies in HCV
- 50Drug Interactions in Patients Treated With DAAs for HCV — Delphi Consensus
- 51Coronary Heart Disease Screening in Kidney and Liver Transplant Candidates: AHA Scientific Statement
- 52Risk of Heart Failure in Patients With NAFLD: JACC Review
- 53AASLD Practice Statement on MASLD in Children Diretriz
- 54NAFLD and the Heart in Children and Adolescents
- 55Reproductive Health and Liver Disease: AASLD Practice Guidance
- 56Liver Disease During Pregnancy
- 57Epidemiologic Trends in Liver Diseases in Pregnancy
- 58Cardiac Risk Assessment in Liver Transplant Candidates: Current Controversies
- 59Perioperative Cardiovascular Assessment and Management of Liver Transplant Patients
- 60AASLD Practice Guidance on Acute-on-Chronic Liver Failure
- 61Comorbid Chronic Diseases and Survival in Compensated and Decompensated Cirrhosis
- 62Pharmacotherapy for MASH: Heart-Liver Co-Management Diretriz 2026
- 63Integrating the Care of MASLD Into Cardiac Rehabilitation
- 64MASLD, MASH, and the CKM Spectrum: A Roadmap for Multiorgan Clinical Trial Design Paradigma