Eixo Hepatocardíaco

Doenças Hepáticas e Risco Cardiovascular

Guia baseado em evidências sobre os mecanismos fisiopatológicos, dados epidemiológicos, avaliação de risco e manejo clínico do paciente com doença hepática crônica e risco cardiovascular aumentado. Conteúdo atualizado com diretrizes AASLD, ESC, ACC/AHA e literatura de 2024–2026.

MASLD/MASH Cirrose Hepatite C Doença Hepática Alcoólica FIB-4 ASCVD Risk Estatinas GLP-1 RA SGLT2i Eixo Gut-Fígado-Coração

O Eixo Hepático-Cardiovascular

O fígado e o coração estão intimamente conectados por vias metabólicas, inflamatórias, hemodinâmicas e imunológicas, formando um eixo bidirecional fígado-coração central na patogênese das doenças cardiovasculares (DCV) em pacientes com hepatopatia crônica. Mecanismos compartilhados incluem inflamação sistêmica, resistência à insulina, dislipidemia aterogênica, estresse oxidativo, disfunção endotelial e disbiose intestinal.

⚙️
Mecanismos Compartilhados Transversais
Presentes em todas as doenças hepáticas crônicas
Eixo Gut → Fígado → Coração
Disbiose intestinal
↑ Permeabilidade intestinal
LPS / TMAO sistêmico
Inflamação hepática + vascular
↑ Risco CV
Inflamação sistêmica crônica
Elevação de TNF-α, IL-6, IL-1β e hsCRP de origem hepática e visceral. Esses mediadores promovem lesão endotelial, progressão de placas ateroscleróticas e disfunção cardíaca. A gordura visceral atua como amplificador parácrino.
Resistência à insulina
Ativa lipogênese hepática de novo, aumenta produção de VLDL, gera partículas LDL pequenas e densas altamente aterogênicas, reduz HDL-colesterol e eleva triglicerídeos — perfil lipídico de alto risco independente dos níveis de LDL-C.
Disfunção endotelial
Mediada por aumento de ADMA (dimetilarginina assimétrica), hiperhomocisteinemia, estresse oxidativo e redução de biodisponibilidade de óxido nítrico. Precede e prediz eventos cardiovasculares maiores (MACE).
Estresse oxidativo
Produção excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS) por mitocôndrias hepáticas disfuncionais, oxidação lipídica e ativação do sistema xantina oxidase. Contribui para lipoperoxidação, dano de DNA e apoptose hepatocelular e vascular.
Desregulação do metabolismo lipídico
O fígado é central na síntese, metabolismo e excreção de lipoproteínas. Disfunção hepática altera a clearance de remanescentes de quilomícrons e VLDL, elevando partículas aterogênicas não-LDL. Em cirrose avançada, a síntese hepática cai paradoxalmente, normalizando o LDL.
Disbiose do microbioma intestinal
Alterações na composição e função da microbiota intestinal promovem produção de metabólitos pró-inflamatórios (TMAO, ácidos biliares secundários) e aumentam a permeabilidade intestinal, gerando translocação bacteriana e ativação imune sistêmica.

A MASLD (Metabolic dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease), anteriormente NAFLD, é o exemplo paradigmático do eixo hepático-cardiovascular. A esteatose hepática e a esteato-hepatite promovem liberação de citocinas pró-inflamatórias (TNF-α, IL-6, hsCRP) que circulam sistemicamente e contribuem para lesão vascular e formação de placas.

Mecanismo central da dislipidemia aterogênica na MASLD

A resistência à insulina — marca registrada da MASLD — prejudica o metabolismo da glicose e aumenta a produção hepática de VLDL e triglicerídeos, resultando em perfil lipídico altamente aterogênico: triglicerídeos elevados, LDL pequeno e denso e HDL reduzido. Targher et al. (NEJM 2010) documentaram detalhadamente como a adiposidade visceral expandida, combinada com necroinlamação hepática, impulsiona a liberação sistêmica de fatores pró-aterogênicos.

Papel crítico da fibrose

A gravidade da fibrose hepática tem correlação direta com aterosclerose subclínica e mortalidade cardiovascular. Cada estágio de progressão da fibrose representa um aumento incremental e independente no risco CV — sublinhando a importância da estadiamento da fibrose na estratificação de risco cardiovascular, e não apenas na hepatologia.

Disfunção endotelial amplificada

Além dos mecanismos inflamatórios, ADMA elevada e hiperhomocisteinemia comprometem a vasodilatação mediada por fluxo e potencializam o estresse oxidativo vascular. A disfunção endotelial precede em anos os eventos cardiovasculares clínicos e pode ser detectada por ultrassonografia da artéria braquial ou medição de espessura íntima-média carotídea.

📌
Posição AHA 2022 (Duell et al.): A MASLD/NAFLD é reconhecida como fator de risco cardiovascular independente. A DCV é a principal causa de morte em pacientes com MASLD, sendo responsável por 40–45% dos óbitos, superando as complicações hepáticas. Evidência forte

Cardiomiopatia alcoólica

O consumo excessivo e crônico de álcool leva à cardiomiopatia alcoólica, caracterizada por morfologia ventricular esquerda dilatada, aumento da massa do VE e disfunção sistólica. Os mecanismos principais incluem estresse oxidativo direto do acetaldeído sobre cardiomiócitos, disfunção mitocondrial com prejuízo do metabolismo energético e comprometimento do manuseio do cálcio intracelular — resultando em contratilidade reduzida e remodelamento adverso.

Fibrose atrial e fibrilação atrial

O álcool induz fibrose do miocárdio atrial por ativação de fibroblastos e produção de TGF-β. Essa fibrose, somada à desregulação neurohormonal (ativação do SRAA e sistema simpático), cria substrato para reentrada e fibrilação atrial. A relação dose-resposta entre consumo de álcool e FA é bem estabelecida — mesmo quantidades moderadas aumentam o risco em populações suscetíveis.

Holiday Heart Syndrome

Taquiarritmias supraventriculares transitórias precipitadas por episódios agudos de consumo excessivo de álcool — classicamente após feriados ou festividades. O mecanismo envolve instabilidade eletrofisiológica aguda por toxicidade direta do etanol e acetaldeído, hipocalemia e hipomagnesemia associadas e desequilíbrio autonômico com predominância simpática durante a embriaguez e vagotonia no rebote.

Mecanismos indiretos

Além dos efeitos cardíacos diretos, a DHA contribui para hipertensão arterial sistêmica (ativação do SRAA, aumentode aldosterona), dislipidemia (hipertrigliceridemia aguda), resistência à insulina e inflamação sistêmica — todos amplificadores do risco cardiovascular.

⚠️
Nota clínica: A cardiomiopatia alcoólica pode ser parcialmente reversível com abstinência completa, especialmente nos estágios iniciais sem fibrose extensa. A fração de ejeção pode melhorar até 10–15 pontos percentuais após 12–18 meses de abstinência. Evidência moderada

Inflamação crônica e lesão endotelial

A infecção crônica pelo vírus da hepatite C (HCV) induz um ambiente inflamatório sistêmico e pró-fibrogênico com lesão endotelial crônica e aceleração da aterosclerose. O HCV infecta diretamente células endoteliais e macrófagos vasculares, além de promover geração de células espumosas e instabilidade de placa por mecanismos imunomediados.

Resistência à insulina e diabetes tipo 2

O HCV promove resistência à insulina por mecanismos dependentes da proteína NS5A viral e ativação do receptor de insulina. O diabetes tipo 2 resultante amplifica exponencialmente o risco cardiovascular — e a resolução da infecção viral por antivirais de ação direta (AAD) melhora o controle glicêmico.

Papel causal da erradicação viral

A erradicação viral com AAD reduz significativamente o risco cardiovascular, reforçando a causalidade entre HCV e DCV. Cacoub e Saadoun (NEJM 2021) demonstraram que a resposta virológica sustentada se associa a redução de eventos cardiovasculares maiores. Este dado tem implicações clínicas diretas: o tratamento do HCV não é apenas hepatológico, mas também uma intervenção cardiovascular.

🔬
HBV: Embora menos fortemente associado à DCV que o HCV, a infecção crônica pelo HBV pode contribuir para lesão vascular imunomediada em algumas populações, especialmente na presença de cirrose. O risco CV no HBV é mediado principalmente pela doença hepática avançada e não pela replicação viral per se. Evidência limitada

Estado circulatório hiperdinâmico

A cirrose, independentemente da etiologia, altera profundamente a fisiologia cardiovascular por meio de um estado circulatório hiperdinâmico: débito cardíaco aumentado (com redução progressiva na doença avançada), resistência vascular sistêmica diminuída por vasodilatação esplâncnica mediada por óxido nítrico e serotonina, e expansão do volume plasmático. Este estado paradoxalmente sobrecarrega o coração apesar da vasodilatação periférica.

Cardiomiopatia cirrótica

Definida por disfunção sistólica e diastólica e anormalidades eletrofisiológicas (prolongamento do QT), frequentemente não identificada em repouso mas desmascarada durante estresse — como infecções, procedimentos ou transplante. O diagnóstico requer ecocardiografia sob estresse e dosagem de BNP/NT-proBNP. O intervalo QTc prolongado prediz mortalidade na cirrose.

Paradoxo trombótico-hemorrágico

A cirrose reequilibra o sistema hemostático em nível mais baixo — redução de fatores pró-coagulantes e anticoagulantes naturais — mas esse equilíbrio é instável e pode pender para trombose (TVP, trombose de veia porta, TEP) ou hemorragia (varizes, CIVD). O risco de tromboembolismo venoso está aumentado em 2 vezes; o risco de AVC isquêmico em 1,7 vezes; porém o IAM tem risco paradoxalmente reduzido em cirróticos compensados.

Impacto na mortalidade pós-evento

A mortalidade após eventos trombóticos é dramaticamente maior em cirróticos: mortalidade em 90 dias após IAM de 27% vs. 5% em controles (Jepsen et al., Hepatology 2021). Este dado deve influenciar diretamente as decisões terapêuticas — menor capacidade de tolerar o tratamento padrão, maior risco de sangramento, menor margem de segurança.

⚠️
Cirrose descompensada: As calculadoras de risco CV tradicionais têm acurácia incerta na cirrose avançada — o LDL-C é falsamente baixo pela falência da síntese hepática. O risco real pode ser subestimado. O uso de ferramentas complementares como FIB-4 e elastografia é mandatório. Lacuna de evidência

As doenças autoimunes e colestáticas hepáticas (hepatite autoimune, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária) associam-se a risco cardiovascular aumentado primariamente através de inflamação sistêmica crônica e desregulação imunológica. A função leucocitária aberrante e citocinas pró-inflamatórias são centrais tanto para a autoimunidade quanto para a aterogênese.

Nas colestases, a acumulação de ácidos biliares contribui para toxicidade vascular direta e o colesterol HDL sofre modificações funcionais que comprometem o transporte reverso de colesterol. A terapia imunossupressora crônica (corticosteroides, calcineurin inhibitors) amplifica ainda mais os distúrbios metabólicos — hipertensão, dislipidemia e diabetes — criando um ciclo de risco cardiovascular acelerado.

Um estudo de coorte de base populacional com 22 milhões de indivíduos no Reino Unido (Conrad et al., Lancet 2022) demonstrou que pacientes com doenças autoimunes têm risco 1,4 a 3,6 vezes maior de desenvolver DCV, com risco crescente com o número de doenças autoimunes concomitantes e particularmente elevado em jovens com menos de 45 anos.

📖
Revisão fundamental: Capone F, Vacata A, Bidault G, et al. "Decoding the Liver-Heart Axis in Cardiometabolic Diseases." Circulation Research 2025;136:1335–1362 — revisão abrangente e atualizada sobre todos os mecanismos do eixo hepatocardíaco.

Magnitude do Risco Cardiovascular por Doença Hepática

A evidência epidemiológica para risco cardiovascular aumentado em todas as doenças hepáticas prevalentes é robusta e consistente, derivada de meta-análises com milhões de indivíduos e coortes histológicas nacionais. Os dados abaixo apresentam estimativas de risco quantitativas por doença.

1.45
HR para eventos CV fatais/não fatais
(IC 95%: 1,31–1,61)
Meta-análise: 36 estudos, 5,8M indivíduos · Mantovani, Lancet GH 2021
2.50
HR eventos CV com
fibrose avançada
(IC 95%: 1,68–3,72)
Mantovani et al., Lancet GH 2021
1.63
HR para MACE ajustado
(IC 95%: 1,56–1,70)
Coorte histológica sueca · Simon, Gut 2022
2.15
HR MACE com
cirrose por MASLD
(IC 95%: 1,77–2,61)
Simon, Gut 2022
📊
Coorte Sueca de Histologia Nacional (Simon et al., Gut 2022)
NAFLD biopsiada — estudo de maior validade interna disponível

Coorte nacional com casos de NAFLD com biópsia confirmada seguidos por décadas. Incidência de MACE: 24,3 vs. 16,0 por 1.000 pessoas-ano em controles pareados. A incidência aumenta progressivamente com a gravidade histológica — desde esteatose simples até cirrose. O dado fundamental é que mesmo a esteatose simples sem NASH confere risco aumentado, descartando a noção prévia de que apenas NASH e fibrose importavam para o risco CV.

Estágio histológico HR ajustado para MACE IC 95% Nível de evidência
Esteatose simples (sem NASH) 1,52 1,45–1,59 Forte
NASH sem fibrose avançada 1,63 1,55–1,71 Forte
Fibrose avançada (F3–F4) 1,92 1,79–2,07 Forte
Cirrose por MASLD 2,15 1,77–2,61 Forte

Risco de eventos CV
vs. controles
Theodoreson et al., Liver Int 2023
2.4
RR de morte CV
(IC 95%: 1,6–3,8)
Meta-análise Theodoreson 2023
3.07
HR para MACE com
fatores cardiometabólicos
(IC 95%: 2,14–4,39)
Danpanichkul et al., Liver Int 2026
3.70
HR para IC com
fatores cardiometabólicos
(IC 95%: 2,11–6,47)
Danpanichkul et al., Liver Int 2026
📋
Ochoa-Allemant et al. (JAMA Internal Medicine 2025) compararam a incidência cumulativa de MACE em subtipos de doença hepática esteatótica em coorte de 341.601 adultos. Embora MetALD e DHA tivessem maiores desfechos hepáticos, a incidência de MACE foi semelhante entre todos os subtipos — enfatizando a carga cardiovascular universal.

1.20
OR para eventos CV
(IC 95%: 1,03–1,40)
Meta-análise · Cacoub & Saadoun, NEJM 2021
1.35
OR para eventos
cerebrovasculares
(IC 95%: 1,00–1,82)
Meta-análise · Cacoub & Saadoun, NEJM 2021
💊
Impacto dos AADs (antivirais de ação direta): A erradicação viral com AADs reduz significativamente o risco cardiovascular pós-tratamento. Este efeito reforça a causalidade entre a infecção por HCV e a DCV, e estabelece o tratamento antiviral como uma intervenção cardiovascular além de hepatológica. Inclui redução de FA, IAM e AVC nos anos após cura virológica. Evidência moderada

Evento trombótico HR ajustado IC 95% Particularidade
Tromboembolismo venoso 2,0 1,5–2,6 Risco dobrado mesmo com INR elevado
AVC isquêmico 1,7 1,3–2,3 Paradoxo: INR elevado não protege
IAM (cirrose compensada) 0,7 0,5–0,9 Risco reduzido — mas mortalidade 27% em 90d
IAM (cirrose descompensada) >1 Risco aumenta na descompensação
Fonte: Jepsen P, Tapper EB et al. Hepatology 2021
⚠️
Mortalidade pós-IAM na cirrose: 27% em 90 dias vs. 5% em controles pareados. O impacto de comorbidades crônicas na cirrose é substancial: HR de 2,5 com uma comorbidade e 4,52 com três comorbidades (Asrani et al., AJG 2022). As complicações cardíacas são atualmente a principal causa de morbimortalidade em receptores de transplante hepático.

2.33
HR MACE em jovens
com MASLD
(IC 95%: 1,43–3,78)
Simon TG et al., Gut 2023
5.27
HR MACE com NASH
em jovens
(IC 95%: 1,96–14,19)
Simon TG et al., Gut 2023
3.1
Incidência MACE por
1.000 pessoas-ano
(vs. 0,9 em controles)
Simon TG et al., Gut 2023
👶
Crianças e jovens com NAFLD biopsiado têm taxas de MACE significativamente maiores — e o NASH confere um risco quase 5,3 vezes maior. Esses dados indicam que a janela de intervenção cardiovascular preventiva deve ser aberta na adolescência, não apenas na idade adulta.

Avaliação do Risco Cardiovascular na Hepatopatia

A estratificação do risco cardiovascular em pacientes com doença hepática requer integração de calculadoras de risco tradicionais com biomarcadores e imagem específicos do fígado. Nenhuma ferramenta isolada é suficiente — a combinação é mandatória.

🎯
Calculadoras de Risco Tradicionais — Limitações e Aplicação
ASCVD Risk, QRISK-3 e suas particularidades na hepatopatia
ASCVD Risk (EUA)
Recomendado pelas diretrizes ACC/AHA 2019. Em pacientes de risco intermediário (≥7,5%), biomarcadores hepáticos (FIB-4, LSM) devem ser incorporados para reclassificação. Em cirrose avançada, o LDL-C falsamente baixo pela falência de síntese hepática pode levar à subestimativa grave do risco real.
QRISK-3 (Reino Unido)
Recomendado pela BASLD/BSG para MASLD. Indivíduos com risco ≥10% em 10 anos devem receber estatina para prevenção primária. O QRISK-3 incorpora variáveis como IMC, DM, tabagismo e deprivação socioeconômica — mais abrangente que o ASCVD para risco absoluto.
Limitação na Cirrose
Em pacientes com cirrose descompensada, ambas as calculadoras têm acurácia incerta. A normalização paradoxal do LDL-C, a anemia dilucional e a hipoalbuminemia comprometem variáveis-chave. Ferramentas complementares (FIB-4, VCTE) são indispensáveis.
🧪
FIB-4 Index — Triagem de Primeira Linha
Fórmula: Idade × AST / (Contagem de plaquetas × √ALT)
📐
Fórmula: FIB-4 = (Idade [anos] × AST [U/L]) ÷ (Plaquetas [×10³/µL] × √ALT [U/L])
Faixa FIB-4InterpretaçãoProbabilidade de fibrose avançadaConduta
< 1,30 Baixo risco de fibrose VPN ~90% Reavaliação em 1–3 anos se fatores de risco persistem
1,30 – 2,67 Zona cinzenta / indeterminado Elastografia transiente (VCTE) para reclassificação
> 2,67 Alto risco de fibrose avançada VPP ~65–80% Encaminhamento a hepatologista + elastografia

Escores de FIB-4 mais elevados associam-se a maior prevalência e gravidade de doença arterial coronariana na MASLD. Tapper e Parikh (JAMA 2023) recomendam FIB-4 como ferramenta de triagem de primeira linha, com papel tanto hepatológico quanto cardiovascular.

📡
Elastografia Transiente (VCTE) — Rigidez Hepática como Marcador de Risco CV
Vibration-Controlled Transient Elastography · FibroScan®
LSM (kPa)Correlação histológicaEspecificidade para cirrose
< 7,9F0–F1 (fibrose ausente/mínima)
7,9 – 9,6F2 (fibrose moderada)
9,7 – 14,9F3 (fibrose avançada)
≥ 15,0F4 (cirrose)95,5%

Rigidez hepática elevada associa-se independentemente a maior risco de insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e doença arterial coronariana — mesmo após ajuste para fatores de risco tradicionais. Boeckmans et al. (Liver International 2023) revisaram sistematicamente o papel da LSM como marcador cardíaco. A VCTE é, portanto, simultaneamente uma ferramenta hepatológica e cardiovascular.


O modelo LIVER-ASCVD+ integra biomarcadores hepáticos específicos (FIB-4, ALT, AST, plaquetas) ao ASCVD Risk Estimator Plus tradicional para pacientes com MASH confirmada por biópsia. Demonstrou AUC de 0,68 para predição de IAM/AVC vs. AUC 0,63 do ASCVD padrão — melhora clinicamente significativa de 8% na discriminação (Hegstrom et al., CMRO 2026).

Esta ferramenta ainda aguarda validação externa em populações brasileiras e latinas, mas representa a direção futura da integração hepatológica-cardiovascular na estratificação de risco.

O mapeamento T1 corrigido por ferro (cT1) por RM hepática mostrou associação independente com eventos cardiovasculares maiores no UK Biobank (Roca-Fernandez et al., J Hepatol 2023):

HR 1.14
MACE maior
(IC 95%: 1,03–1,26)
HR 1.30
Fibrilação atrial
(IC 95%: 1,12–1,51)
HR 1.30
Insuficiência cardíaca
(IC 95%: 1,09–1,56)

O cT1 captura fibrose hepática, inflamação e esteatose em uma única medida quantitativa, posicionando-se como biomarcador de imagem multiparamétrico cardiovascular.

Park et al. (Scientific Reports 2024) compararam a sensibilidade dos scores não invasivos para predição de mortalidade cardiovascular em pacientes com fibrose hepática de alto risco:

ScoreSensibilidade (mortalidade CV)Especificidade
SAFE Score73,3%
FIB-429,6%
NAFLD Fibrosis Score21,3%

O SAFE Score demonstra superioridade expressiva no desfecho cardiovascular específico — contudo necessita de maior validação antes de substituir o FIB-4 como ferramenta de triagem de primeira linha.

🔑
Abordagem prática recomendada (AASLD 2023 / Gries et al., Lancet GH 2025): Todo paciente com MASLD/MASH deve ter avaliação sistemática anual de: (1) HbA1c para triagem de DM tipo 2; (2) PA e dislipidemia; (3) FIB-4 para fibrose; (4) calculadora ASCVD ou QRISK-3. Em risco intermediário (ASCVD ≥7,5%), adicionar elastografia e biomarcadores cardíacos (BNP/NT-proBNP) para reclassificação.

Tratamento Cardiovascular na Doença Hepática

O manejo farmacológico do risco cardiovascular em pacientes hepatopatas exige conhecimento de segurança hepática, interações medicamentosas e limitações de evidência por grau de disfunção hepática. Nenhuma droga deve ser descontinuada sem avaliação cuidadosa do balanço risco-benefício.

💊
Estatinas — Pedra Angular da Redução de Risco CV
Seguras da esteatose à cirrose compensada
Posição AASLD 2023: Estatinas são seguras em todo o espectro da MASLD, incluindo cirrose compensada, e não devem ser evitadas por preocupação com hepatotoxicidade. A hepatotoxicidade grave por estatinas é rara e idiossincrática — ocorre independente da doença hepática prévia.
Contexto hepáticoRecomendaçãoMonitoramentoFonte
MASLD/NASH (sem cirrose) Recomendado ALT/AST basal e em 3–6 meses AASLD 2023
Cirrose compensada (Child-Pugh A) Seguro — indicar Monitoramento hepático periódico AASLD 2023, AHA 2019
Cirrose descompensada (Child B/C) Contraindicado — dados limitados ADA 2026
Hepatite aguda / transaminases >3× LSN Contraindicado (temporariamente) Reavaliar após normalização AHA Scientific Statement 2019

Quando a monoterapia com estatina não atinge metas lipídicas: combinação com ezetimiba, inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe), inclisirana, ácido bempedoico (aprovado FDA para redução de LDL-C em adultos com hipercolesterolemia primária ou DCV estabelecida que não toleram estatinas), fibratos ou icosapent etil pode ser considerada — sempre com avaliação da função hepática.

💉
GLP-1 RAs e SGLT2i — Dupla Eficácia Hepática e Cardiovascular
Semaglutida · Liraglutida · Tirzepatida · Empagliflozina · Dapagliflozina
🧬
GLP-1 Receptor Agonistas
Semaglutida, Liraglutida, Tirzepatida
Recomendados para MASLD/MASH quando combinados com indicações aprovadas (obesidade, DCV, DRC ou DM tipo 2). Benefício CV comprovado em estudos de desfechos (LEADER, SUSTAIN-6, FLOW) com redução de MACE, IAM e AVC. Melhora histológica do NASH: semaglutida 2,4 mg reduz fibrose em estudos de fase III (MASH-STEP).
✓ Benefício CV ✓ Melhora NASH ⚠ Monitorar TGO/TGP
🫀
SGLT2 Inibidores
Empagliflozina, Dapagliflozina, Canagliflozina
Demonstram dupla eficácia em desfechos hepáticos e cardiovasculares. Reduzem esteatose hepática, ALT e fibrose em estudos clínicos. Benefício CV e renal comprovado (EMPA-REG, DAPA-HF, DAPA-CKD). Particularmente úteis em MASLD + IC com fração de ejeção reduzida ou preservada.
✓ Benefício CV/renal ✓ Reduz esteatose ? Fibrose: dados preliminares
🔬
Resmetirom
Agonista do receptor β de hormônio tireoidiano
Aprovado pelo FDA para NASH não cirrótico com fibrose moderada a avançada (F2–F3). Reduz LDL-C e triglicerídeos além dos efeitos hepatológicos. Dados de desfechos cardiovasculares ainda não disponíveis — monitoramento de função cardíaca recomendado.
✓ FDA-aprovado NASH F2–F3 ✓ Reduz LDL/TG ? Dados CV longos prazo pendentes
🩸
Anticoagulação na Doença Hepática — DOACs, Varfarina e FA
Diretriz ACC/AHA/ACCP/HRS 2023
📋
A diretriz ACC/AHA/ACCP/HRS 2023 para FA recomenda que DOACs são razoáveis em pacientes com FA e doença hepática leve a moderada (Child-Pugh A–B), com menores riscos de sangramento maior (OR 0,54, IC 95%: 0,38–0,75) e hemorragia intracraniana (OR 0,35, IC 95%: 0,23–0,53) vs. varfarina.
DOACChild-Pugh AChild-Pugh BChild-Pugh CObservação
Apixabana Seguro Razoável Evitar Sem aumento significativo de exposição em CHP-B
Dabigatrana Seguro Razoável Evitar Eliminação renal predominante — cuidado na DRC
Rivaroxabana Seguro Evitar Contraindicado ↑ 2,27× exposição em CHP-B — risco hemorrágico
Edoxabana Seguro Cautela Evitar Dados limitados em hepatopatia moderada
Varfarina Possível Difícil controle Contraindicado INR não confiável — coagulopatia hepática confunde monitoramento
⚠️
Armadilha clínica crítica: O INR elevado na cirrose NÃO indica anticoagulação adequada — reflete síntese reduzida de fatores pró e anticoagulantes simultaneamente. O paciente cirrótico pode estar em estado pró-trombótico apesar de INR >2,0. O tromboelastograma (TEG) ou tromboelastometria (ROTEM) podem ser mais informativos.
Interações Medicamentosas: AADs para HCV × Fármacos Cardiovasculares
Inibição de OATP1B1/1B3 · CYP3A4 · P-gp — Implicações clínicas significativas

Os antivirais de ação direta (AADs) para HCV produzem interações farmacocinéticas clinicamente significativas com fármacos cardiovasculares. O mecanismo central envolve inibição dos transportadores hepáticos de captação OATP1B1/1B3, aumentando a exposição sistêmica a estatinas e dabigatrana.

Regime de AADTaxa de contraindicação com CVPerfil de interação
Sofosbuvir/Velpatasvir 1,4% Menor perfil de interação — preferível quando minimizar interações é prioritário
Glecaprevir/Pibrentasvir 12,8% Inibe OATP1B1/1B3 fortemente — ↑ rosuvastatina, atorvastatina e dabigatrana
SOF/VEL/VOX (pan-genotípico) 16,6% Maior taxa de contraindicações — avaliação farmacológica mandatória
💡
Consenso de especialistas (Borghi et al., JCM 2022): Não suspender fármacos cardiovasculares durante a terapia com AADs. A abordagem preferível é selecionar o AAD com menor potencial de interação para pacientes em uso de cardiovasculares. Quando a combinação é inevitável, redução de dose da estatina e monitoramento clínico são medidas práticas.
Estatinas + AADs inibidores de OATP
↑ AUC de rosuvastatina (até 10×), atorvastatina (3–7×) e lovastatina. Risco aumentado de miopatia. Preferir pravastatina (não metabolizada por CYP3A4) ou fluvastatina em doses menores. Sinvastatina contraindicada com maioria dos regimes.
Dabigatrana + AADs
↑ exposição à dabigatrana por inibição de P-gp. Risco aumentado de sangramento, especialmente com glecaprevir/pibrentasvir. Monitoramento clínico rigoroso; considerar redução de dose conforme função renal.
Amiodarona + Sofosbuvir
Bradicardia grave (incluindo fatal) documentada — combinação contraindicada. Mecanismo não completamente elucidado. Pacientes em amiodarona devem ter bradicardia monitorada por 48h se a combinação for inevitável.
🫀
Beta-bloqueadores e Bloqueadores do SRAA na Hepatopatia
Redução de pressão portal · Hipertensão · Insuficiência cardíaca
Beta-bloqueadores não-seletivos (propranolol, carvedilol)
Seguros na cirrose compensada. Benefício adicional: redução de pressão portal e profilaxia primária/secundária de hemorragia varicosa. Na cirrose descompensada, hipotensão pode precipitar síndrome hepatorrenal — redução de dose ou suspensão pode ser necessária se PAS <90 mmHg ou TFGe em queda.
IECA / BRA (Bloqueadores do SRAA)
Seguros em cirrose compensada e MASLD para manejo da hipertensão. Reduzem pressão portal e fibrose em modelos animais. Evitar na cirrose descompensada: risco de hipotensão grave, piora da função renal e síndrome hepatorrenal. Monitorar creatinina, Na+ e K+ cuidadosamente.

Manejo em Contextos Clínicos Específicos

Populações pediátricas, gestantes, imunossuprimidos e pacientes com cirrose descompensada requerem abordagens individualizadas, dados os diferentes perfis de risco, limitações de evidência e necessidades de cuidado multidisciplinar.

👶
Crianças e Adolescentes com MASLD
AASLD Practice Statement 2025 (Xanthakos et al.)

Até 1/3 das crianças com NAFLD confirmada por biópsia apresenta pressão arterial elevada, e metade tem hipertrigliceridemia clinicamente acionável. Modificações estruturais cardiovasculares — espessura íntima-média carotídea aumentada e massa ventricular esquerda elevada — são documentadas mesmo após ajuste para obesidade.


A modificação do estilo de vida é a pedra angular: redução ponderal de 7–10% melhora esteatose, NASH e perfil metabólico. Farmacoterapia em crianças é limitada — vitamina E e metformina têm evidência modesta; GLP-1 RAs (liraglutida, semaglutida) estão sendo estudados em adolescentes.


O risco de MACE em jovens com NASH (HR 5,27) impõe triagem cardiovascular precoce — rastreamento de fatores de risco CV desde o diagnóstico, com acompanhamento anual de PA, perfil lipídico e glicemia.

🤰
Gestação e Doença Hepática Crônica
AASLD Practice Guidance 2021 · ACG 2022

A MASLD é a hepatopatia crônica mais prevalente na gravidez, com crescimento de 2,5 vezes na última década. Requer aconselhamento pré-concepcional, manejo multidisciplinar e colaboração obstétrica precoce.


Vigilância endoscópica para varizes deve ser realizada no ano antes da gravidez. Beta-bloqueadores são seguros para profilaxia primária durante a gravidez. MELD score antenatal ≥10 tem sensibilidade e especificidade de 83% para predição de descompensação hepática gestacional.


Estatinas são contraindicadas na gravidez (categoria X). GLP-1 RAs devem ser suspensos ao planejar gestação. A hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia têm maior prevalência em mulheres com MASLD e hepatopatia crônica — monitoramento rigoroso de PA é mandatório.

🧬
Imunossuprimidos e Doenças Autoimunes
Pós-transplante · Hepatite autoimune · CEP · CBP

Em pacientes imunossuprimidos — tanto portadores de doenças autoimunes hepáticas quanto receptores de transplante — a inflamação sistêmica crônica e as terapias imunossupressoras (corticosteroides, inibidores de calcineurina como tacrolimus e ciclosporina) amplificam distúrbios metabólicos: hipertensão, dislipidemia e diabetes de nova instalação pós-transplante (NODAT).


Complicações cardíacas são atualmente a principal causa de morbimortalidade em receptores de transplante hepático — superando infecções e rejeição. A avaliação cardíaca pré-transplante é obrigatória mas varia amplamente entre centros.


No HCV pós-transplante, a erradicação viral com AADs reduz o risco cardiovascular mesmo nessa população — tornando o tratamento antiviral uma prioridade cardiológica além de hepatológica.

🚨
Cirrose Descompensada e ACLF
Lacunas de evidência · AASLD Practice Guidance 2024

A insuficiência hepática aguda sobre crônica (ACLF) representa o pior cenário do manejo cardiológico: alta mortalidade, dados cardiovasculares escassos e extrapolação de cuidados intensivos gerais sem evidência específica.


O impacto aditivo de comorbidades na cirrose é substancial: HR de 2,5 com uma comorbidade até 4,52 com três (Asrani et al., AJG 2022). Calculadoras de risco CV tradicionais têm acurácia incerta — o LDL-C normaliza pela falência sintética.


Estatinas: a AASLD recomenda uso apenas com monitoramento cuidadoso em descompensados com alto risco CV em avaliação para transplante. Beta-bloqueadores e SRAA: podem precipitar síndrome hepatorrenal — decisão individualizada. Anticoagulação: o paradoxo hemostático impõe avaliação funcional (TEG/ROTEM) além do INR.


Doença Hepática Risco CV relativo Causa principal de morte Estatina GLP-1/SGLT2i DOAC (FA) Prioridade de rastreio
MASLD sem fibrose HR 1,52 DCV (40–45%) Indicada Se obeso/DM/DCV DOAC padrão ASCVD + FIB-4 anual
MASH / fibrose F2–F3 HR ~1,9 DCV + hepática Indicada Indicado / Resmetirom DOAC padrão ASCVD + VCTE + ecocardio
Cirrose compensada (CHP-A) HR 2,15 DCV + IC hepatocardíaca Segura — indicar Dados limitados Apixabana/Dabigatrana VCTE + Echo + BNP
Cirrose descompensada (CHP-B/C) Muito alto Hepática + CV Evitar/Contraindicada Contraindicado Rivaroxabana: evitar TEG + Echo stress + MDT
DHA RR 2,4 morte CV DCV + hepática Segura se compens. Cautela Por grau CHP ASCVD + ECG + ecocardio
HCV crônico OR 1,20 CV Hepática + DCV Indicada Se elegível DOAC padrão Tratar HCV (↓ risco CV)
Doenças autoimunes/colestáticas RR 1,4–3,6 DCV Indicada Se elegível Por grau CHP ASCVD + perfil metabólico

Cuidado Multidisciplinar e Direções Futuras

As recomendações mais recentes (2024–2026) enfatizam uma mudança de paradigma: do manejo isolado por órgão para modelos integrados, centrados no paciente, com equipes multidisciplinares e framings sistêmicos como o espectro CKM (Cardiovascular-Kidney-Metabolic).

🌐
Espectro Cardiovascular-Renal-Metabólico (CKM)
ACC/AHA 2023 + JACC 2026 (Zannad et al.)

A integração da MASLD/MASH ao espectro CKM (Cardiovascular-Kidney-Metabolic Health) posiciona a disfunção hepática como componente central de uma doença sistêmica cardiometabólica — não uma entidade isolada. Esse framework estimula:

Triagem transversal: paciente com DM tipo 2 deve ser triado para MASLD (FIB-4), DRC (TFGe + albuminúria) e DCV (ASCVD) simultaneamente. A presença de qualquer componente deve elevar o escrutínio para os demais.

Terapias de impacto multiorgânico: GLP-1 RAs e SGLT2i são exemplos de drogas que simultaneamente beneficiam fígado, rim e coração — representando o ideal terapêutico para esse espectro.

Zannad et al. (JACC 2026) propõem designs de ensaios clínicos multi-órgãos — basket trials e plataformas — para desenvolver terapias holísticas para doenças interconectadas, reconhecendo que ensaios de órgão único são insuficientes para capturar o benefício total.

Espectro CKM — Interconexões
🫀
Coração
DCV, IC, FA
🔥
Obesidade Visceral
Resistência insulínica
🫀
Fígado
MASLD, MASH, Cirrose
🫘
Rim
DRC, albuminúria
🧬
Metabolismo
DM2, dislipidemia
🏃
Reabilitação Cardíaca e MASLD
Sebastiani, Raggi & Guaraldi · Canadian Journal of Cardiology 2025

A reabilitação cardíaca está sendo reconhecida como uma oportunidade para redução proativa do risco cardiometabólico em pacientes com MASLD — não apenas após eventos cardíacos, mas também naqueles com fibrose ou DM tipo 2 como prevenção primária cardiovascular e hepática.

Benefícios documentados do exercício estruturado na MASLD incluem: redução de esteatose (independente de perda ponderal), melhora da sensibilidade à insulina, redução de ALT, melhora da disfunção diastólica e redução de peptídeos natriuréticos. A meta de perda ponderal de 7–10% produz benefícios incrementais em esteatose, inflamação e fibrose.

🏥
Modelo de Equipe Multidisciplinar (MDT) Recomendado
Gries et al., Lancet GH 2025 · Zhou et al., Lancet GH 2026
Cardiologista
Avaliação e gestão de DCV, IC, FA e fatores de risco CV. Realização de ecocardiografia e teste de esforço. Otimização de estatinas, anti-hipertensivos e anticoagulantes com base no grau de disfunção hepática.
Hepatologista
Estadiamento da fibrose com FIB-4 e VCTE. Manejo de hipertensão portal, varizes, ascite. Avaliação para transplante. Triagem de carcinoma hepatocelular. Identificação de contraindicações farmacológicas.
Endocrinologista / Diabetologista
Controle glicêmico intensivo (HbA1c <7%). Seleção de agentes com benefício hepatocardíaco comprovado (GLP-1 RA, SGLT2i). Manejo de dislipidemia aterogênica complexa. Avaliação hormonal e tireoidiana.
Nutricionista / Educador Físico
Implementação de dieta mediterrânea ou DASH adaptada. Meta de redução ponderal 7–10%. Prescrição individualizada de exercício aeróbico e resistido. Abordagem do padrão de sono e sedentarismo como fatores de risco modificáveis.
Farmacêutico Clínico
Revisão completa de interações medicamentosas, especialmente DAAs × cardiovasculares. Monitoramento de doses de estatinas conforme função hepática. Ajuste de DOACs por Child-Pugh e TFGe. Reconciliação medicamentosa pré/pós-transplante.
Psicólogo / Psiquiatra
Abordagem de transtornos alimentares, síndrome metabólica comportamental, álcool e depressão — comorbidades frequentes na DHA, MASLD e cirrose que impactam adesão e desfechos. Fundamental no suporte à mudança de estilo de vida sustentada.
🔑
Prioridades práticas para o sistema de saúde (2025–2026): Triagem sistemática e não invasiva simultânea para doença hepática e cardiovascular em populações de alto risco. Integração de FIB-4, VCTE e ASCVD em vias clínicas unificadas. Inclusão de MASLD no rastreio cardiovascular de rotina de pacientes com DM2, obesidade e síndrome metabólica.
Aviso médico importante: Este material é uma referência educacional baseada nas melhores evidências disponíveis até 2026. Não substitui avaliação médica individualizada. Decisões terapêuticas devem sempre considerar o contexto clínico completo do paciente, incluindo comorbidades, preferências e valores individuais. Consulte sempre um médico especialista.

Referências Bibliográficas

64 referências selecionadas, priorizando diretrizes e estudos publicados entre 2021–2026. Classificação por nível de evidência indicada.

  1. 1
    Decoding the Liver-Heart Axis in Cardiometabolic Diseases
    Capone F, Vacata A, Bidault G, et al. Circulation Research. 2025;136(11):1335–1362. doi:10.1161/CIRCRESAHA.125.325492
  2. 2
    The Heart-Brain-Metabolism Axis in Cardiovascular and Neurologic Disease
    Tardo DT, Cortes-Canteli M, Fuster V, et al. JACC. 2025;86(25):2663–2686.
  3. 3
    Shared Mechanisms Between Cardiovascular Disease and NAFLD
    Huang DQ, Downes M, Evans RM, et al. Semin Liver Dis. 2022;42(4):455–464.
  4. 4
    NAFLD and Cardiovascular Disease: A Review of Shared Cardiometabolic Risk Factors
    Muzurović E, Peng CC, Belanger MJ, et al. Hypertension. 2022;79(7):1319–1326.
  5. 5
    Altered Lipid Metabolism and Electronegative LDL in NAFLD and CVD
    Vural H, Armutcu F, Akyol O, Weiskirchen R. Clin Chim Acta. 2021;523:374–379.
  6. 6
    NAFLD, and Cardiovascular and Cardiac Diseases: Factors Influencing Risk, Prediction and Treatment
    Targher G, Corey KE, Byrne CD. Diabetes Metab. 2021;47(2):101215.
  7. 7
    NAFLD and Cardiovascular Risk: A Scientific Statement From the AHA Forte
    Duell PB, Welty FK, Miller M, et al. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2022;42(6):e168–e185.
  8. 9
    NAFLD And the Heart: JACC State-of-the-Art Review
    Stahl EP, Dhindsa DS, Lee SK, et al. JACC. 2019;73(8):948–963.
  9. 10
    Risk of Cardiovascular Disease in Patients with NAFLD Forte
    Targher G, Day CP, Bonora E. NEJM. 2010;363(14):1341–1350.
  10. 11
    MASLD and Cardiovascular Risk: A Comprehensive Review
    Zheng H, Sechi LA, Navarese EP, et al. Cardiovasc Diabetol. 2024;23(1):346.
  11. 12
    Understanding MASLD — From Molecular Pathogenesis to Cardiovascular Risk
    Ratti C, Malaguti M, Emanuele D, et al. Atherosclerosis. 2025;409:120495.
  12. 13
    MASLD: A Systemic Metabolic Disorder With Cardiovascular and Malignant Complications
    Targher G, Byrne CD, Tilg H. Gut. 2024;73(4):691–702.
  13. 14
    MASLD and Cardiovascular Disease: New Perspectives
    Zhou Q, Liu W, Zhou D, et al. Medicine. 2025;104(33):e43952.
  14. 15
    Alcohol and Cardiovascular Disease
    Gupta S, Ahimsadasan N, Dalsania K, et al. Am J Cardiol. 2025. doi:10.1016/j.amjcard.2025.09.035
  15. 16
    Cardiac Manifestations in Alcoholic Liver Disease
    Milić S, Lulić D, Štimac D, et al. Postgrad Med J. 2016;92:235–239.
  16. 17
    Extrahepatic Manifestations of Chronic HCV Infection Forte
    Cacoub P, Saadoun D. NEJM. 2021;384(11):1038–1052.
  17. 18
    Cardiovascular Risk and Lipidemic Phenotype in Liver Disease by Etiology
    Loria P, Marchesini G, Nascimbeni F, et al. Atherosclerosis. 2014;232(1):99–109.
  18. 19
    Prevalence and Risk Factors of CVD in Patients With Chronic Hepatitis B
    Chun HS, Lee JS, Lee HW, et al. Dig Dis Sci. 2022;67(7):3412–3425.
  19. 20
    Liver Cirrhosis (Review) Forte
    Ginès P, Krag A, Abraldes JG, et al. Lancet. 2021;398(10308):1359–1376.
  20. 21
    Cirrhotic Cardiomyopathy
    Zardi EM, Abbate A, Zardi DM, et al. JACC. 2010;56(7):539–549.
  21. 22
    Diagnosis and Management of Cirrhosis and Its Complications: A Review Forte
    Tapper EB, Parikh ND. JAMA. 2023;329(18):1589–1602.
  22. 23
    Autoimmune Diseases and Atherosclerotic Cardiovascular Disease
    Porsch F, Binder CJ. Nat Rev Cardiol. 2024;21(11):780–807.
  23. 24
    Autoimmune Diseases and Cardiovascular Risk: 22 Million Individuals in the UK Forte
    Conrad N, Verbeke G, Molenberghs G, et al. Lancet. 2022;400(10354):733–743.
  24. 25
    NAFLD and Risk of Fatal and Non-Fatal CV Events: Meta-Analysis (36 estudos, 5,8M) Forte
    Mantovani A, Csermely A, Petracca G, et al. Lancet GH. 2021;6(11):903–913.
  25. 26
    NAFLD and Incident MACE: Nationwide Histology Cohort (Suécia) Forte
    Simon TG, Roelstraete B, Hagström H, et al. Gut. 2022;71(9):1867–1875.
  26. 27
    Adverse Liver Outcomes, CV Events, and Mortality in Steatotic Liver Disease (341.601 adultos) Forte
    Ochoa-Allemant P, Hubbard RA, Kaplan DE, Serper M. JAMA Internal Medicine. 2025;185(8):986–995.
  27. 28
    Cardiovascular Outcomes in Patients With Biopsy-Proven Alcohol-Related Liver Disease
    Hagström H, Thiele M, Sharma R, et al. Clin Gastroenterol Hepatol. 2023;21(7):1841–1853.
  28. 29
    Extra-Hepatic Morbidity and Mortality in Alcohol-Related Liver Disease: Meta-Analysis
    Theodoreson MD, Aithal GP, Allison M, et al. Liver Int. 2023;43(4):763–772.
  29. 30
    Liver, CV and Infectious Outcomes in Alcohol-Associated Liver Disease With Cardiometabolic Risk Factors
    Danpanichkul P, Duangsonk K, Pang Y, et al. Liver Int. 2026;46(4):e70575.
  30. 31
    Risk and Outcome of Venous and Arterial Thrombosis in Patients With Cirrhosis: Danish Nationwide Cohort Forte
    Jepsen P, Tapper EB, Deleuran T, et al. Hepatology. 2021;74(5):2725–2734.
  31. 32
    CVD Risk in Paediatric and Young Adult NAFLD Forte
    Simon TG, Roelstraete B, Alkhouri N, et al. Gut. 2023;72(3):573–580.
  32. 33
    AASLD Practice Guidance on NAFLD Diretriz
    Rinella ME, Neuschwander-Tetri BA, Siddiqui MS, et al. Hepatology. 2023;77(5):1797–1835.
  33. 34
    Quality Standards for NAFLD Management: BASLD/BSG Consensus
    McPherson S, Armstrong MJ, Cobbold JF, et al. Lancet GH. 2022;7(8):755–769.
  34. 35
    Interdisciplinary Perspectives on Co-Management of MASLD and Coronary Artery Disease Diretriz
    Gries JJ, Lazarus JV, Brennan PN, et al. Lancet GH. 2025;10(1):82–94.
  35. 36
    Liver Stiffness as a Cornerstone in Heart Disease Risk Assessment
    Boeckmans J, Sandrin L, Knackstedt C, Schattenberg JM. Liver Int. 2023. doi:10.1111/liv.15801
  36. 37
    Improving CV Risk Prediction in Metabolic Liver Disease With a Novel Biomarker-Enhanced Model (LIVER-ASCVD+)
    Hegstrom L, Kim Y, Vu P, et al. Curr Med Res Opin. 2026:1–13.
  37. 38
    Liver Disease Is a Significant Risk Factor for CV Outcomes — UK Biobank Study Forte
    Roca-Fernandez A, Banerjee R, Thomaides-Brears H, et al. J Hepatol. 2023;79(5):1085–1095.
  38. 39
    Comparative Non-Invasive Tests for Risk Stratification for Cause-Specific Mortality in Hepatic Fibrosis
    Park H, Yoon EL, Kim M, et al. Sci Rep. 2024;14(1):7189.
  39. 40
    Statin Safety and Associated Adverse Events: AHA Scientific Statement Diretriz
    Newman CB, Preiss D, Tobert JA, et al. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2019;39(2):e38–e81.
  40. 41
    Comprehensive Medical Evaluation and Assessment of Comorbidities: Standards of Care in Diabetes-2026 Diretriz
    American Diabetes Association. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S61–S88.
  41. 43
    Cardiovascular, Kidney, and Metabolic Health: An Actionable Vision for Heart Failure Prevention
    Ostrominski JW, Cheng AYY, Nelson AJ, et al. Lancet. 2025;406(10508):1171–1192.
  42. 44
    The Basics of MASLD for Cardiologists: Pathophysiology, Diagnosis, and Treatment Revisão JACC
    Khan MS, Javaid SS, Dinani A, et al. JACC. 2025;86(20):1861–1884.
  43. 45
    AACE Clinical Practice Guideline for NAFLD: Co-Sponsored by AASLD
    Cusi K, Isaacs S, Barb D, et al. Endocr Pract. 2022;28(5):528–562.
  44. 46
    2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for Atrial Fibrillation Diretriz
    Joglar JA, Chung MK, et al. JACC. 2024;83(1):109–279.
  45. 47
    Cardiovascular Risk Management and Hepatitis C: Combining Drugs
    Smolders EJ, Ter Horst PJG, Wolters S, Burger DM. Clin Pharmacokinet. 2019;58(5):565–592.
  46. 48
    Mechanisms and Clinical Significance of PK Drug Interactions Mediated by HCV Direct-Acting Antivirals
    Murray M. Clin Pharmacokinet. 2023;62(10):1365–1392.
  47. 49
    Potential Interactions Between Pangenotypic DAAs and Cardiovascular Therapies in HCV
    Sicras-Mainar A, Morillo-Verdugo R. J Int Med Res. 2020;48(10).
  48. 50
    Drug Interactions in Patients Treated With DAAs for HCV — Delphi Consensus
    Borghi C, Ciancio A, Gentile I, et al. J Clin Med. 2022;11(23):6946.
  49. 51
    Coronary Heart Disease Screening in Kidney and Liver Transplant Candidates: AHA Scientific Statement
    Cheng XS, VanWagner LB, Costa SP, et al. Circulation. 2022;146(21):e299–e324.
  50. 52
    Risk of Heart Failure in Patients With NAFLD: JACC Review
    Mantovani A, Byrne CD, Benfari G, et al. JACC. 2022;79(2):180–191.
  51. 53
    AASLD Practice Statement on MASLD in Children Diretriz
    Xanthakos SA, Ibrahim SH, Adams K, et al. Hepatology. 2025. doi:10.1097/HEP.0000000000001368
  52. 54
    NAFLD and the Heart in Children and Adolescents
    Pacifico L, Chiesa C, Anania C, et al. World J Gastroenterol. 2014;20(27):9055–9071.
  53. 55
    Reproductive Health and Liver Disease: AASLD Practice Guidance
    Sarkar M, Brady CW, Fleckenstein J, et al. Hepatology. 2021;73(1):318–365.
  54. 56
    Liver Disease During Pregnancy
    Reau N, Munoz SJ, Schiano T. Am J Gastroenterol. 2022;117(10S):44–52.
  55. 57
    Epidemiologic Trends in Liver Diseases in Pregnancy
    Jutras G, Fenton C, Flemming JA, et al. Am J Gastroenterol. 2025. doi:10.14309/ajg.0000000000003687
  56. 58
    Cardiac Risk Assessment in Liver Transplant Candidates: Current Controversies
    Barman PM, VanWagner LB. Hepatology. 2021;73(6):2564–2576.
  57. 59
    Perioperative Cardiovascular Assessment and Management of Liver Transplant Patients
    Ibrahim AO, Mohamed MS, Ivanova V. Curr Opin Anaesthesiol. 2025;38(4):498–502.
  58. 60
    AASLD Practice Guidance on Acute-on-Chronic Liver Failure
    Karvellas CJ, Bajaj JS, Kamath PS, et al. Hepatology. 2024;79(6):1463–1502.
  59. 61
    Comorbid Chronic Diseases and Survival in Compensated and Decompensated Cirrhosis
    Asrani SK, Hall L, Reddy V, et al. Am J Gastroenterol. 2022;117(12):2009–2016.
  60. 62
    Pharmacotherapy for MASH: Heart-Liver Co-Management Diretriz 2026
    Zhou XD, Lazarus JV, Krittanawong C, et al. Lancet GH. 2026. doi:10.1016/S2468-1253(25)00323-1
  61. 63
    Integrating the Care of MASLD Into Cardiac Rehabilitation
    Sebastiani G, Raggi P, Guaraldi G. Can J Cardiol. 2025. doi:10.1016/j.cjca.2025.06.075
  62. 64
    MASLD, MASH, and the CKM Spectrum: A Roadmap for Multiorgan Clinical Trial Design Paradigma
    Zannad F, Khan MS, Bansal N, et al. JACC. 2026. doi:10.1016/j.jacc.2025.12.015