Implante Transcateter de Válvula Aórtica
Da fisiopatologia da estenose aórtica calcificada às evidências de longo prazo. Guia de referência para cardiologistas intervencionistas: indicações, próteses, sizing, técnica passo a passo, eco intraoperatório, complicações, VAB, TAVI-in-TAVI e comparação com cirurgia.
A estenose aórtica calcificada (EAc) é uma doença ativa mediada por lipídios, inflamação e mineralização — com mecanismos que guardam semelhanças com a aterosclerose coronária, mas distintos em aspectos cruciais. A lesão inicial consiste no acúmulo subendotelial de lipoproteínas contendo apolipoproteína B — principalmente LDL e lipoproteína(a) [Lp(a)] — nas cúspides valvares. A Lp(a) carrega fosfolípidos oxidados que promovem calcificação local de forma independente dos níveis de LDL-C, explicando por que estatinas não reduzem a progressão de EA já estabelecida e por que o silenciamento de Lp(a) com RNA interferente (pelacarsen, zerlasiran) é investigado como estratégia preventiva.[1,2]
A oxidação dos lipídios acumulados recruta macrófagos e linfócitos T para a cúspide, com ativação de TNF-α, IL-6 e NF-κB, e upregulation de metaloproteinases de matriz (MMP-2, MMP-9) que degradam a arquitetura colágena. Simultaneamente, células intersticiais valvares (VIC) normalmente fibroblasto-like sofrem trans-diferenciação osteoblástica, em processo dependente da supressão do gene Notch1 (perda de função do Notch1 é identificada em formas precoces e hereditárias de EAc), com ativação dos fatores de transcrição Runx2 e Osterix. O resultado é deposição de fosfato de cálcio estruturado (hidroxiapatita) nas cúspides, com espessamento progressivo, rigidez e obstrução do VSVE.[1,2,3]
A obstrução fixa ao fluxo impõe sobrecarga crônica de pressão ao ventrículo esquerdo (VE). A resposta adaptativa inicial é a hipertrofia concêntrica — replicação de sarcômeros em paralelo que reduz o estresse parietal segundo a Lei de Laplace e mantém o débito cardíaco. Essa adaptação é inicialmente benéfica, mas torna-se maladaptativa com a progressão da doença.[3,4]
Com o tempo, desenvolvem-se duas formas distintas de fibrose miocárdica com implicações prognósticas e responsividade à intervenção completamente diferentes:[4,5,6]
🔄 Fibrose Intersticial Difusa
- Expansão da matriz extracelular entre cardiomiócitos
- Detectável por CMR-T1 mapping (ECV elevado)
- Potencialmente reversível após substituição valvar
- Contribui para disfunção diastólica e rigidez ventricular
- GLS reduzido mesmo com FEVE preservada
❌ Fibrose Focal de Substituição
- Necrose e substituição de cardiomiócitos por colágeno
- Detectável por CMR-LGE (late gadolinium enhancement)
- Irreversível — não regride após intervenção valvar
- Preditor independente de mortalidade e IC pós-AVR
- Presente em 30-40% dos pacientes com EA grave
A sobrecarga pressórica e a hipertrofia resultante comprometem a perfusão microvascular coronária (redução da reserva de fluxo coronário por compressão dos capilares intra-murais e aumento da demanda), levam à apoptose de miócitos, disfunção diastólica por lentificação do relaxamento, dilatação do átrio esquerdo e, em estágios avançados, à disfunção sistólica. As consequências a montante incluem dilatação do AE, fibrilação atrial, hipertensão pulmonar e regurgitação mitral funcional secundária ao remodelamento do VE.[5,7]
A detecção precoce de disfunção subclínica é fundamental para otimizar o timing da intervenção antes do surgimento de fibrose irreversível. As principais ferramentas são:[5,7]
| Perfil | Critério | Recomendação | Classe / Nível |
|---|---|---|---|
| Risco proibitivo/muito alto | STS-PROM >15% ou contraindicação cirúrgica | TAVI (se anatomia adequada) | I / A |
| Alto risco cirúrgico | STS-PROM ou EuroSCORE II >8% | TAVI preferida (todas as idades) | I / A |
| ≥75 anos (qualquer risco) | Anatomia transfemoral favorável | TAVI — preferida | I / A |
| 65–74 anos, risco baixo-int. | Decisão individualizada pelo Heart Team | TAVI ou SAVR — equiparáveis, individualizar | IIa / B |
| <65 anos | Risco baixo-intermediário, vida esperada >20 anos | SAVR preferida (durabilidade, dados limitados para TAVI) | I / C |
| Válvula bicúspide (VAB) | EA grave sintomática; centro de excelência valvar | TAVI pode ser alternativa à SAVR | IIb / B-NR |
| Assintomática, EA muito grave | Vmáx ≥5 m/s OU rápida progressão OU BNP >3× normal | Intervenção precoce a considerar | IIa / B |
| EA moderada + ICFEr | AVA 1,0–1,5 cm², FEVE <50% | Considerar intervenção valvar (dados emergentes) | IIb / C |
Os scores de risco são ferramentas auxiliares — jamais devem substituir a avaliação clínica integrada pelo Heart Team. Todos têm limitações conhecidas: foram derivados de populações cirúrgicas, não capturam fragilidade, DPOC grave, rede de apoio social, aortapatia ou anatomia coronária.[8,10]
STS-PROM
- Society of Thoracic Surgeons Predicted Risk of Mortality
- Padrão norte-americano, disponível em riskcalc.sts.org
- Baixo <4%, intermediário 4–8%, alto >8%
- Não inclui fragilidade, DPOC grave, porcelain aorta
EuroSCORE II
- European System for Cardiac Operative Risk Evaluation II
- Padrão europeu, disponível em euroscore.org
- Tende a subestimar risco em idosos e a superestimá-lo em alguns subgrupos
- Alto risco definido >8% pelo ESC/EACTS
- Expectativa de vida estimada <1 ano (neoplasia avançada, demência grave, fragilidade terminal)
- Ausência de melhora esperada da qualidade de vida após intervenção (comorbidade extracardíaca grave)
- Endocardite infecciosa ativa na válvula nativa ou em prótese
- Trombo intracardíaco não tratado
- Annulo <17 mm (nenhuma prótese disponível) ou >30 mm (apenas grandes SEV, mas risco de migração)
- Ausência de acesso vascular adequado E ausência de acesso alternativo factível
- Altura de óstio coronário <6 mm com seio de Valsalva estreito (risco de obstrução coronária)
- Calcificação severa do VSVE e do annulo (risco de ruptura anular, bloqueio de condução)
- Angulação aórtica extrema (>70° VSVE-aorta) — dificuldade de posicionamento e cruzamento
- Aorta bicúspide tipo 0 com calcificação assimétrica severa
- Dilatação grave da aorta ascendente (>55 mm) — considerar correção cirúrgica simultânea
- Doença vascular periférica severa impedindo acesso transfemoral E sem alternativa
- Insuficiência aórtica pura grave sem calcificação significativa — risco de migração (dispositivos específicos existem: JenaValve)
As BEVs são expandidas por inflação de balão e não são reposicionáveis uma vez iniciado o deployment. O frame de liga cobalto-cromo (CC) oferece alta força radial e geometria circular previsível. Os folhetos de pericárdio bovino são posicionados intra-anularmente, com a saia de vedação externa (outer sealing skirt) minimizando o refluxo paravalvar. A característica definitória das BEVs é o perfil de frame baixo e a previsibilidade do deployment, o que facilita significativamente o acesso coronário futuro — crítico em candidatos a TAVI mais jovens.[12,14]
Fabricadas em nitinol com memória de forma, as SEVs expandem espontaneamente ao serem liberadas do sistema de entrega. São recapturáveis e reposicionáveis, oferecendo maior margem de ajuste de posicionamento. O posicionamento supra-anular dos folhetos resulta em maior área de orifício efetivo (EOA) e menores gradientes, especialmente benéficos em annuli pequenos (síndromes de paciente-prótese [PPM]). O preço é a maior taxa de MPP (pelo maior contato com o septo membranoso e o feixe de His) e frames mais altos que complicam o acesso coronário futuro.[12,15,16]
| Parâmetro | BEV (SAPIEN 3) | SEV (Evolut PRO+) | Favorece |
|---|---|---|---|
| PVL moderado/grave | ~2% | ~5–10% | BEV |
| MPP | 8–13% | 19–22% | BEV |
| Gradiente médio pós-implante | 10–15 mmHg | 7–12 mmHg | SEV |
| EOA (área de orifício efetivo) | Menor | Maior (supra-anular) | SEV |
| Annuli pequenos (<23 mm) | PPM frequente | Vantajoso | SEV |
| Acesso coronário futuro | Mais fácil (frame baixo) | Mais difícil (frame alto) | BEV |
| Reposicionamento | Não | Sim | SEV |
| TAVI-in-TAVI-in-TAVI futura | Mais planejável | Acesso coronário muito limitado | BEV |
| Annulo elíptico / VAB | Melhor aposição por força radial | Risco de PVL aumentado | BEV |
A tecnologia RESILIA (Edwards) utiliza fixação do pericárdio bovino com glutaraldeído em estado de zero-pressure com quelação do cálcio pelo reagente EDC — diferentemente do tratamento clássico de alta pressão. Estudos ex vivo demonstram redução de calcificação acelerada e maior resistência à fadiga in vitro. Dados clínicos de curto prazo (COMMENCE trial) mostram excelente performance hemodinâmica; dados de durabilidade de longo prazo para pericárdio RESILIA ainda em seguimento em TAVI (PARTNER 3 RESILIA em andamento).[9,18]
A tomografia computadorizada com angiografia (CTA) cardíaca é o padrão ouro para o planejamento anatômico do TAVI, superando o ecocardiograma na caracterização precisa do annulo, das estruturas periannulares e do acesso vascular. A aquisição deve ser retrospectivamente gated (melhor qualidade temporal) ou prospectivamente triggered (menor dose de radiação). A fase de análise é a sístole (tipicamente 25–35% do ciclo RR), que corresponde à máxima abertura valvar e ao maior diâmetro anular funcional — subestimar o annulo em diástole leva a undersizing e PVL.[13,19]
- Cobertura: da carina até a bifurcação aórtica (+ artérias ilíacas femorais para avaliação de acesso)
- Contraste: protocolo bifásico — concentração alta (370–400 mgI/mL), 80–100 mL IV + flush
- Colimação: ≤0,6 mm (isotropic reconstruction para multiplanar reformatted)
- Gatilho: ROI na aorta ascendente ou VE, threshold 100–150 HU
- Reconstrução: MPR curvilíneo e duplo-oblíquo ao nível do annulo. Software dedicado: 3mensio, Medis, Philips IntelliSpace
- Contraindicações relativas: ClCr <30 mL/min (CO2 angiography ou CTA sem gadolínio), alergia grave ao contraste (pre-medicação)
O plano de reconstrução deve ser posicionado no ponto de inserção das três cúspides valvares — chamado de anel virtual basal (VBA) ou simplesmente annulo. O plano é obtido traçando-se uma reta entre os nadir das três cúspides em visão sagital e coronal, depois corrigindo a obliquidade até visualizar o anel en face. As medidas necessárias são:[13,19]
| Medida | Técnica | Aplicação |
|---|---|---|
| Diâmetro médio (D médio) | Média de D maior e D menor | Orientação geral de tamanho |
| Perímetro | Traçado manual sobre a borda interna do annulo | Preferido para seleção de BEV (SAPIEN 3) — mais acurado para annuli elípticos |
| Área | Calculada pelo software após traçado do contorno | Preferido para SEV (Evolut); D derivado da área = √(4A/π) |
| Diâmetro maior e menor | Eixos máximo e mínimo | Elipticidade: D maior / D menor >1,3 = alto risco de PVL e má aposição |
A oclusão coronária é uma complicação catastrófica, associada a mortalidade de 40–50% e conversão emergencial para cirurgia ou intervenção coronária (chimney stenting). A CTA deve medir a distância da base do annulo virtual ao centro do óstio coronário — a Coronary Height:[13,19,20]
Além da altura, o Basal-To-Width (BTW) — extensão do seio de Valsalva — é crítico: um seio estreito impede que os folhetos da prótese se afastem dos óstios. O parâmetro chamado "Virtual TAVI" ou simulação de implante pelo software (ex: 3mensio) projeta os folhetos da prótese em relação à anatomia coronária, permitindo identificar risco de oclusão antes do procedimento.
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1Wiring Coronário ProfiláticoFio guia posicionado em coronária de risco antes do deployment. Se houver obstrução, permite angioplastia imediata. Limitação: o fio e o cateter guia podem dificultar o alinhamento da prótese e podem não prevenir chimney standby coronária.
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2Chimney Stenting (Coronary Snorkel)Stent posicionado em paralelo com a prótese, com porção proximal protrudindo para a aorta acima da coronária. Indicado como resgate em oclusão aguda ou como técnica planejada de alta complexidade (chimney bilateral = "kissing chimneys"). Mortalidade operatória ainda elevada (~30%). Compromete o acesso coronário futuro.
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3BASILICA (Bioprosthetic or native Aortic Scallop Intentional Laceration to prevent Iatrogenic Coronary Artery obstruction)Laceração intencional do folheto da válvula nativa (ou bioprótese) na altura do óstio coronário com cateter de radiofrequência, criando uma abertura que permite o fluxo coronário mesmo após a prótese transcateter deslocar o folheto. Técnica pre-procedimento em laboratório hemodinâmica ou hemodinâmica híbrida. Taxa de sucesso técnico >90%, redução significativa de oclusão coronária. Indicado quando LVEF >20%, coronary height <10mm + seio estreito. O BASILICA bilateral simultâneo é possível. Recurso crítico para TAVI-in-TAVI com risco de coronária.[20]
O estudo RE-ACCESS (JACC CI 2022) demonstrou que a reintubação coronária seletiva após TAVI foi impossível em 7,7% dos casos, com SEV supra-anuares, profundidade de implante excessiva e oversizing em relação ao seio de Valsalva como preditores independentes de falha de acesso. O alinhamento comissural — posicionamento das comissuras da prótese em correspondência com os óstios coronários — é recomendado pelo ALIGN-TAVR Consortium como medida para preservar o acesso coronário futuro, especialmente em pacientes jovens que necessitarão de coronariografia ao longo da vida.[14,21]
O acesso femoral transfemoral é o padrão ouro por sua menor morbimortalidade. A CTA das ilíacas e femorais deve avaliar: diâmetro luminal mínimo, calcificação circunferencial, tortuosidade e angulação. O diâmetro mínimo requerido varia conforme o sistema de entrega (sheath) utilizado:
| Sistema / Prótese | Sheath | Diâmetro Mínimo Femoral | Observação |
|---|---|---|---|
| SAPIEN 3 20/23/26mm | 14F eSheath XT | ≥5,0 mm | Sheath expandível reduz trauma |
| SAPIEN 3 29mm | 16F eSheath XT | ≥5,5 mm | |
| Evolut R/PRO 23–29mm | 14F EnVeo | ≥5,0 mm | |
| Evolut PRO+ 34mm | 16F EnVeo | ≥5,5 mm | |
| Portico FlexNav | 14F | ≥5,0 mm |
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1Profilaxia Antibiótica e AnestesiaCefazolina 1–2g IV 30–60 min antes do procedimento. Abordagem minimalist (sedação consciente + TTE) em casos de baixa complexidade anatômica e boa janela ecográfica. TEE com anestesia geral para anatomias complexas, VAB, emergências, janela acústica pobre e conversão de acesso. A tendência nos centros experientes é sedação moderada, com redução de tempo de UTI e complicações pulmonares.
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2Acesso Vascular e HemostasiaPunção femoral bilateral guiada por ultrassom (parede anterior da AFC acima da bifurcação) + acesso arterial radial ou braquial para cateter pigtail. Técnica de pré-fechamento (ProGlide × 2 em 10h e 2h, ou MANTA 18F) antes da inserção do introdutor de grande calibre. O uso de dispositivo MANTA (14F ou 18F) tem mostrado equivalência ao ProGlide com menor sangramento em alguns registros. Alternativamente: acesso cirúrgico com exposição da femoral comum (em casos de calcificação severa ou acesso altamente tortuoso).
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3AnticoagulaçãoHeparina não fracionada (HNF): 70–100 UI/kg IV após inserção do introdutor. ACT alvo >300 s (alguns protocolos utilizam >250 s para sedação consciente). Monitorar ACT a cada 30–40 min. Protamina ao final para reversão (especialmente em acessos com risco hemorrágico). Bivalirudina é alternativa, especialmente em trombocitopenia induzida por heparina.
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4Definição da Projeção de Trabalho (Implant Angulation)Angiografia aórtica com cateter pigtail em Ao ascendente, posicionado à altura das cúspides. Ajuste do angulamento do arco fluoroscópico para obter visualização perpendicular do plano do annulo: alinhamento das cúspides em 3-cusp view (todas as três cúspides no mesmo plano, duas sobrepostas). Tipicamente entre 20–25° RAO + 15–20° caudal (variável por anatomia aórtica). Importação do ângulo ideal a partir da CTA pré-operatória pelo software de co-registro.
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5Cruzamento Retrógrado da Válvula AórticaCateter AL1 ou JR4 + fio-guia hidrofílico reto ou J-suave. O cruzamento é realizado pela cúspide não-coronariana (geralmente anterior direita) com movimentos de torque e avanço. Posição ideal: cateter e fio no interior do VE sem contato excessivo com a parede. Substituição por fio-guia diagnóstico J-0,035" e troca por cateter pigtail no VE para medida de gradiente transvalvar e ventriculografia.
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6Posicionamento do Fio-Guia de Suporte (Stiff Wire)Inserção do fio-guia rígido (Amplatz Extra-Stiff 0,035", Safari 2, ou Lunderquist). O loop é formado no ápice ou parede lateral do VE, criando uma curva suave que estabiliza o sistema de entrega sem risco de perfuração (evitar loop no VSVE). A posição do fio é crítica: tensão excessiva no ápice pode causar perfuração (hemopericárdio), posição muito superficial reduz suporte. A fio Lunderquist oferece maior rigidez mas é mais rígido no VE.
A valvuloplastia de balão pré-implante foi historicamente realizada rotineiramente. Com as próteses de terceira geração, múltiplos centros adotaram estratégia de implantação direta (sem BAV), especialmente para BEV. O estudo DIRECT TAVR demonstrou que a omissão da BAV com SAPIEN 3 não resultou em piora de PVL, gradientes ou MPP, com tendência a menor taxa de FA e menor tempo de procedimento. Para SEV (Evolut), a BAV ainda é comum para facilitar o cruzamento e o deployment inicial.
🔵 BEV — SAPIEN 3 Ultra
- Avança o sistema Commander sobre o fio-guia rígido
- Posicionamento: 80% da prótese abaixo do plano do annulo (ventricular) e 20% supraanular em fluoroscopia
- Estimulação ventricular rápida (VVI 180–200 bpm) via pace-maker temporário para reduzir o débito durante o deployment
- Insuflação do balão em 5–7 s com seringa roscável
- Deflação imediata após insuflação completa
- Avaliação imediata por TEE/TTE e angiografia pigtail
- Pós-dilatação seletiva com balão se PVL significativo
🟣 SEV — Evolut PRO+
- Libera lentamente girando o mecanismo de torque do sistema Enveo
- Posicionamento inicial: marcadores radiopacos do frame alinhados ao plano do annulo
- Sem estimulação rápida para o deployment (gradual, controlado)
- Recapturo possível até ~80% de liberação para ajuste
- A coroa ventricular âncora primeiro; liberação completa depois do ajuste de posição
- Avaliação por TEE e angiografia
- Pós-dilatação com balão: mais comum que em BEV
-
7Avaliação Imediata Pós-DeploymentAngiografia aórtica (pigtail na Ao ascendente, 40–50% de opacificação): avaliação de PVL (jet de contraste ao redor da prótese no LVOT), posição, abertura de folhetos, patência das coronárias. TEE/TTE: gradientes por Doppler contínuo e pulsado, PVL por Doppler de cor (EROA, vena contracta, holodiastólico nas ilíacas), função VE, pericárdio (excluir tamponamento), valva mitral. ECG: novo LBBB, BAV, mudanças de PR.
-
8Manejo de PVL Agudo SignificativoPVL moderado-grave imediato: 1) Post-dilatação com balão do mesmo diâmetro (ou discretamente maior) sob estimulação rápida — resolve em ~60% dos casos. 2) Valve-in-valve (segunda prótese) — para PVL não responsivo ou prótese malposicionada. 3) Avaliação de possível oclusão coronária, perfuração, ruptura anular (TC urgente ou angiografia).
-
9Hemostasia Vascular e EncerramentoAtivação dos sutures ProGlide ou deployment do MANTA vascular closure. Angiografia ilíaca/femoral final para confirmar ausência de extravasamento, dissecção ou obstrução. Compressão manual adicional se necessário. Heparina revertida com protamina (0,5–1 mg/100 UI de HNF) para femorais com calcificação severa. Remoção do marcapasso temporário em 24–48h após monitoramento de condução (exceto se BRE novo persistente ou episódios de BAV).
| Acesso | Indicação | Vantagem | Limitação |
|---|---|---|---|
| Subclávia / Axilar Esq. | DVP femoral severa bilateral | Percutâneo, baixo perfil, proximidade à aorta | Dissecção local, AVC ipsilateral, manejo difícil em obesos |
| Transcarotídeo | DVP periférica grave; cirurgias prévias | Curto trajeto, menor angulação | AVC ipsilateral, acesso cirúrgico obrigatório, contraindicado em placa carotídea grave |
| Transcaval | Sem acesso arterial adequado | Completamente percutâneo; VCI → Ao abdominal | Técnica complexa, riscos de fístula AV residual, disponível em poucos centros |
| Transapical | DVP periférica severa, anatomia desfavorável | Acesso direto ao ápice do VE, pré-dilatação sem estimulação rápida | Toracotomia necessária, mortalidade maior, acesso coronário comprometido |
| Transaórtico | Anastomoses femorais, DVP severa | Acesso direto Ao ascendente | Esternotomia parcial; experiência limitada; restrito a centros selecionados |
A ecocardiografia transtorácica (TTE) confirma o diagnóstico de EA grave pelos critérios hemodinâmicos, avalia a função ventricular (FEVE, GLS), quantifica regurgitações concomitantes e identifica contraindicações ao TAVI (trombo no VE, miocardiopatia hipertrófica obstrutiva, IM grave). A ecocardiografia transesofágica (TEE) adiciona resolução superior na avaliação da morfologia valvar, e o TEE 3D é preferido para análise da anatomia em VAB. A medida do annulo por TEE 3D tem moderada correlação com CTA, mas a CTA permanece superior (menor variabilidade intraoperador, campo de visão mais amplo). [22,23,24]
- Calcificação e morfologia das cúspides (incluindo fusão, rafe em VAB)
- FEVE, disfunção diastólica, cargas de pressão no VE
- Regurgitação mitral: primária vs funcional, gravidade
- Hipertensão pulmonar (gradiente estimado VD-AD)
- Exclusão de endocardite, trombo, mixoma
O TEE intraoperatório guia o cruzamento valvar (cateter posicionado na cúspide adequada), monitora o fio-guia rígido no VE (evitar loop no VSVE — risco de perfuração), guia o posicionamento e deployment da prótese, e avalia imediatamente pós-implante.[23,24]
- Profundidade de implante: distância da base do frame ao annulo (alvo 3–6 mm para SAPIEN 3)
- Posicionamento do fio-guia: confirmar loop apical livre de tensão (sem "tenting" da parede)
- Pré-dilatação: monitorar expansão do balão, detectar hemopericárdio imediato
- Deployment: avaliação da abertura simétrica dos folhetos; supra ou infra-posicionamento
- Pós-implante imediato: PVL (localização e graduação), gradiente, função VE, pericárdio
A avaliação de PVL pela ASE (Zoghbi et al., JASE 2019) requer abordagem multiparamétrica — nenhum parâmetro isolado é suficiente.[25,26]
- Circunferência do jet: <10% = leve; 10–29% = moderado; ≥30% = grave
- Vena contracta: <3 mm = leve; 3–6 mm = moderado; >6 mm = grave
- Pressão meia-tempo: <500 ms = leve; 200–500 ms = moderado; <200 ms = grave
- Fluxo diastólico reverso em Ao descendente: presente e holodiastólico = moderado/grave
- TEE 3D: localização precisa (anterior, posterior, lateral) — guia pós-dilatação
- Angiografia + Eco: integração dos dois métodos melhora a classificação
| Janela / Plano | Ângulo (°) | Aplicação Principal |
|---|---|---|
| Eixo longo da valva aórtica (LVOT view) | 120–150° | Profundidade de implante, PVL, alinhamento LVOT-prótese |
| Eixo curto da aorta (SAX Ao) | 30–60° | Morfologia valvar, morfologia do PVL (localização, circunferência) |
| 4-câmaras transgástrico (deep TG) | 0–20° | Cruzamento valvar, posição do fio-guia no VE |
| Eixo longo transgástrico | 90–120° | LVOT e prótese em visão simultânea, gradiente por Doppler |
| 3D en face da valva | 70–100° + 3D | Morfologia da prótese, circunferência do PVL, alinhamento comissural |
| Ao descendente | 90° | Fluxo diastólico reverso (confirmação PVL significativo) |
Em centros de alto volume e anatomia favorável, o TTE substitui o TEE na maioria dos casos de abordagem minimalist. As janelas paraesternal longa, apical 5-câmaras e subcostal permitem avaliação adequada do posicionamento e PVL na maioria dos pacientes. As limitações são: janela acústica pobre (obesos, DPOC), dificuldade de avaliação 3D, menor resolução na visualização de pequenos jets de PVL. O TEE sempre deve estar disponível no laboratório para conversão imediata se necessário.
A PVL resulta da má aposição do frame da prótese ao annulo nativo — consequência de calcificação irregular que impede a expansão uniforme do stent, undersizing relativo, implantação excêntrica ou geometria não-circular do annulo (VAB). PVL de grau moderado ou grave é preditor independente de aumento de mortalidade (HR ~2,3), internação por IC e hemólise intravascular.[25,26,27,28,29]
- PVL leve: conduta expectante; monitoramento com eco seriado
- PVL moderado imediato: pós-dilatação com balão (soluciona ~60% dos casos); localização guiada por TEE 3D
- PVL grave imediato: valve-in-valve (segunda prótese); conversão cirúrgica se instabilidade
- PVL crônico moderado/grave: oclusão percutânea com plug vascular (AVP II, Vascular Plug, Occlutech); redo-TAVI; cirurgia de retirada e substituição (raramente indicada)
- Benefício prognóstico: redução para PVL leve ou ausente associa-se a melhora significativa de sobrevida em registros de seguimento (Landes EHJ 2023) [29]
O nó atrioventricular e o feixe de His passam pelo septo membranoso imediatamente abaixo e posterior ao ponto de inserção da cúspide coronariana direita. A compressão radial do frame da prótese sobre essa região anatômica — especialmente em implantes profundos no LVOT — é o principal mecanismo de distúrbio de condução pós-TAVI.[15,16,32]
| Complicação | BEV (SAPIEN 3) | SEV (Evolut R) | Preditor Principal |
|---|---|---|---|
| BRE novo | 15–20% | 25–40% | Profundidade implante >6mm no LVOT |
| BAV completo / MPP | 8–13% | 19–22% | BRE pré-existente, calcificação LVOT, SEV |
| BAV de 1º ou 2º grau novo | 5–10% | 10–20% | PR basal >200ms, RBBB pré-existente |
AVC é a complicação mais temida do TAVI, com incidência de 2–4% em 30 dias (maior nas primeiras 24h peri-procedimento). Os mecanismos incluem: embolização de cálcio fragmentado da válvula durante o cruzamento e deployment, tromboembolismo de fragmentos do aorta, embolização de ar e fibrina da prótese, e FA perioperatória. O risco é maior em VAB (OR 1,24 para AVC em 30 dias vs TAV).[45]
Incidência: 0,7–1,1% — mas associada a mortalidade de 40–50% e necessidade de conversão cirúrgica de emergência em até 20% dos casos. Ocorre quando os folhetos deslocados pela prótese se alinham ao óstio coronário e bloqueiam o fluxo. Mais comum na coronária esquerda (seio de Valsalva mais próximo ao annulo), em mulheres (seios menores) e em VAB (folhetos mais longos).[13,19,20]
Complicação rara (0,5–1%) mas catastrófica — mortalidade de 30–50%. Resulta de oversizing excessivo combinado a calcificação severa e rígida do annulo/LVOT. Três tipos: tipo 1 (apenas o annulo), tipo 2 (LVOT/septo interventricular), tipo 3 (estendendo-se à aorta). O diagnóstico é sugerido por colapso hemodinâmico imediato após o deployment e confirmado por eco (nova regurgitação mitral grave por perfuração septal, hemopericárdio) ou CTA emergencial.[19]
- Prevenção: CTA detalhada da calcificação do LVOT, não oversizing além do recomendado em annuli calcificados, balão de pré-dilatação nunca maior que o annulo
- Preditores em CTA: calcificação circunferencial severa do LVOT, presença de "calcium bar" no septo interventricular basal
- Manejo: pericardiocentese imediata (se tamponamento), protamina, controle de pressão (vasoconstritor se hipotensão + manutenção FC), cirurgia cardiovascular de emergência. Em casos Tipo 1 sem tamponamento: watchful waiting com monitoramento rigoroso
A endocardite após TAVI (TAVI-IE) ocorre em 0,7–3,4% por paciente-ano, com pico de incidência nos primeiros 100 dias (2,59 eventos por 100 pessoas-ano). A bioprótese transcateter parece mais susceptível que a cirúrgica no período precoce, possivelmente pela manipulação intraoperatória, calcificação residual e menor endotelização inicial.[33,34,35]
| Parâmetro | Dado |
|---|---|
| Agente mais comum | Enterococcus spp. (25–30%) — DIFERENTE das próteses cirúrgicas (estreptococo) |
| 2º agente mais comum | Staphylococcus aureus (16–20%) |
| Mortalidade hospitalar | ~25–30% |
| Sobrevida em 1 ano | ~58% |
| Sobrevida em 5 anos | ~29% |
| Profilaxia recomendada | Amoxicilina/clavulanato (cobre enterococo — cefalosporinas NÃO cobrem enterococo) |
A trombose subclínica dos folhetos (Hypoattenuating Leaflet Thickening — HALT) é detectada por CTA em 10–40% dos pacientes pós-TAVI, com frequência muito maior que a apresentação clínica. O HALT leva a incremento nos gradientes médios (Subclinical Leaflet Thrombosis — SCLT) e é reversível com anticoagulação. Os ensaios GALILEO e ATLANTIS avaliaram estratégias antitrombóticas pós-TAVI:[13,39]
PPM ocorre quando a EOA da prótese implantada é pequena em relação à superfície corporal do paciente — resultando em gradientes residuais elevados (gradiente médio >20 mmHg = PPM severo). É mais frequente com BEV em annuli pequenos e em obesidade. O impacto clínico é controverso no curto prazo, mas PPM severo associa-se a pior remodelamento ventricular e possivelmente maior mortalidade em seguimento. SEVs supra-anuares (Evolut) oferecem maior EOA e menor risco de PPM — vantagem particularmente relevante para sexo feminino e baixa superfície corporal.
A VAB é a malformação cardíaca congênita mais comum (0,5–2% da população), responsável por até 50% de todas as intervenções valvares aórticas em adultos jovens. A morfologia varia amplamente — da fusão de duas cúspides com ou sem rafe à presença de três cúspides desiguais — o que determina desafios técnicos muito distintos para o TAVI.[40,41,42,43,44]
| Classificação | Morfologia | Prevalência | Relevância para TAVI |
|---|---|---|---|
| Sievers Tipo 0 (VAB pura) | Apenas 2 cúspides, sem rafe | ~10% | Anel elíptico marcado, maior risco de PVL — desafio máximo |
| Sievers Tipo 1-L | 1 rafe (fusão das cúspides coronarianas esquerda + direita) | ~68% | Calcificação anterior/anterior-esquerda; obstrução coronária esquerda potencial |
| Sievers Tipo 1-R | 1 rafe (fusão coronariana direita + não-coronariana) | ~25% | Calcificação anterior-direita; preferencial para muitos centros |
| Sievers Tipo 2 | 2 rafes (rarissímo) | <1% | Anatomia mais complexa; manejo caso a caso |
Pacientes com VAB foram excluídos dos trials pivotais de TAVI. Os dados disponíveis são de registros e meta-análises:[40,41,42,45,46,47]
- Mortalidade 1 ano: menor em VAB vs TAV (OR 0,86; 95% CI 0,75–0,98; p=0,02)
- AVC em 30 dias: maior em VAB vs TAV (OR 1,24; 95% CI 1,08–1,43; p<0,01)
- MPP: semelhante entre grupos
- PVL moderado/grave: tendência a maior em VAB
- Taxa de conversão cirúrgica: maior em VAB
- Sucesso do dispositivo com próteses de 3ª geração: >90%
Trial randomizado, pacientes ≤75 anos, baixo risco, incluiu 100 pacientes com VAB (20% da amostra). Resultados no subgrupo VAB:[46]
- Composto (morte + AVC + reinternação) 1 ano: 14,3% TAVI vs 3,9% SAVR (HR 3,8; 95% CI 0,8–18,5; p=0,10)
- Embora não significativo estatisticamente (amostra pequena), a magnitude da diferença é clinicamente alarmante
- Conclusão: TAVI em VAB de baixo risco ≤75 anos deve ser realizado com grande cautela, idealmente em centros de excelência valvar, com decisão individualizada pelo Heart Team
Jia Y et al. (CCI 2025) reportou uma coorte multicêntrica de 894 pacientes com VAB submetidos a TAVI. Incidência cumulativa a 5 anos: SVD moderado/grave: 8,1%; SVD grave: 3,2%; Falha de bioprótese (BVF): 6,1%. Idade ≤75 anos associou-se a maiores taxas de reintervenção (HR 2,40; p=0,04). Pacientes com VAB e "downsizing" da válvula nativa TAV (implante em anatomia nativa menor que o frame) tiveram maior risco de SVD e BVF — evitar esta prática.[47]
Com o aumento da longevidade dos pacientes submetidos a TAVI e a expansão para populações mais jovens, o redo TAVI torna-se cada vez mais relevante. A degeneração estrutural da bioprótese transcateter (SVD-TAVI) é a principal indicação, com as limitações anatômicas específicas do TAVI-in-TAVI tornando o planejamento por CTA absolutamente crítico.[48,49,50]
-
1Planejamento por CTA — Neo-LVOT e Risco CoronárioA CTA pré-TAVI-in-TAVI deve incluir simulação do neo-LVOT (área do VSVE projetada após o segundo implante). Área <1,8 cm² é ponto de corte para risco aumentado de obstrução hemodinâmica grave. Risco de obstrução coronária: 27% de impossibilidade de acesso em CoreValve/Evolut-first vs 10% para SAPIEN-first. Multidetector CT study De Backer et al. JACC CI 2020.[49]
-
2Técnicas de Preservação do Acesso CoronárioBASILICA preventivo antes do TAVI-in-TAVI: lacera o folheto da bioprótese original ao nível do óstio coronário, criando abertura para o fluxo coronário. Alinhamento comissural durante o PRIMEIRO implante de TAVI reduz o risco no redo (planejar desde o índice). Seleção da prótese para TAVI-in-TAVI: preferir THVs com baixo perfil de frame e células abertas largas (SAPIEN 3 em SAPIEN 3 → melhor acesso; Evolut em Evolut → muito difícil).[14,49,50]
-
3Técnica de Implantação no TAVI-in-TAVICruzamento da bioprótese degenerada (geralmente mais fácil que a valva nativa calcificada). Pré-dilatação com balão opcional mas frequentemente útil para fraturar os folhetos calcificados da bioprótese original (VIVID trial). Deployment da nova prótese alinhada ao annulo da primeira prótese. Gradientes geralmente levemente mais altos (15 vs 12 mmHg em 1 ano, sem impacto clínico - Makkar 2023 Lancet).[48]
| Trial | N | Risco / Perfil | Seguimento | Mortalidade / Comp. Primário | Desfecho |
|---|---|---|---|---|---|
| PARTNER 3 | 1.000 | Baixo risco | 7 anos | TAVI 19,5% vs SAVR 16,8% — morte all-cause | NS |
| NOTION | 280 | Baixo risco; mediana 79a | 10 anos | 65,5% vs 65,5% (morte/AVC/IAM) | NS |
| PARTNER 2A | 2.032 | Intermediário | 5 anos | Morte + AVC: 47,9% vs 43,4% | NS |
| SURTAVI | 1.746 | Intermediário (Evolut) | 5 anos | Morte + AVC: 31,3% vs 30,8% | NS |
| Evolut Low Risk | 1.414 | Baixo risco (SEV) | 3 anos | Morte + AVC: 7,4% vs 10,4% (1 ano) | TAVI ≤ |
| DEDICATE | 1.414 | Baixo-intermediário | 1 ano | Morte + AVC: 5,4% TAVI vs 10,0% SAVR | TAVI NI |
| CoreValve ER | 471 | Extremo risco | 3 anos | Sobrevida: TAVI 54% vs SAVR 20,3% | TAVI << |
| CoreValve HR | 750 | Alto risco | 3 anos | Morte: TAVI 37,3% vs SAVR 46,7% | TAVI < |
O seguimento de 7 anos do PARTNER 3 (Leon MB et al., NEJM 2025) representa os dados mais longos disponíveis para TAVI vs SAVR em baixo risco. Os resultados demonstram que a equivalência mantida até 5 anos começa a mostrar uma tendência (não significativa) a maior mortalidade com TAVI em muito longo prazo — consistente com preocupações teóricas de durabilidade superior do SAVR em jovens.[39]
O NOTION (Thyregod HGH et al., EHJ 2024) é o único RCT com 10 anos de seguimento comparando TAVI vs SAVR. Incluiu pacientes de baixo risco, mas com mediana de idade de 79 anos (não ideal para extrapolação para jovens). O dado de durabilidade é surpreendentemente favorável ao TAVI: SVD grave foi menos frequente com TAVI do que com SAVR aos 10 anos (1,5% vs 10,0%), enquanto BVF foi comparável (9,7% vs 13,8%).[51]
Meta-análise de 8 RCTs em pacientes de risco baixo a alto:[54]
- Mortalidade precoce (<30 dias): TAVI menor (RR 0,67; 95% CI 0,47–0,96)
- Morte + AVC 1 ano (baixo risco): TAVI menor (RR 0,68; 95% CI 0,50–0,92)
- Depois de 1 ano: sem diferença entre TAVI e SAVR
- TAVI: menor sangramento maior 30 dias (RR 0,38), menor IRA 30 dias (RR 0,38), menor FA nova 30 dias (RR 0,25)
- TAVI: maior MPP 30 dias (RR 2,62), maior complicações vasculares 30 dias (RR 2,37), maior AVC/AIT 30 dias (RR 1,33)
Meta-análise focada em pacientes de baixo a intermediário risco com seguimento longo:[55]
- Mortalidade comparável até 2 anos
- Mortalidade com TAVI significativamente maior a ≥5 anos (RR 1,13; 95% CI 1,03–1,23)
- Limitação crítica: inclui dados de próteses de 1ª e 2ª gerações — Não representativo de próteses atuais
- Heterogeneidade elevada entre os estudos
- Conclusão dos autores: TAVI e SAVR comparáveis nos primeiros anos; dados de longo prazo ainda insuficientes para próteses de 3ª geração
| Dispositivo | 5 anos | 8 anos | 10 anos | 15+ anos |
|---|---|---|---|---|
| SAVR biológica (geral) | >98% livre SVD | ~94% | ~90% | ~82% a 15a; ~52% a 20a |
| SAPIEN 3 (PARTNER 2) | SVD 0,68%/100 pt-ano = comparável SAVR | SVD menor TAVI (13,9% vs 28,3%) | ~15,4% mod/grave | Dados ainda limitados |
| CoreValve (NOTION) | Comparável | Comparável | SVD grave: 1,5% TAVI vs 10% SAVR (p<0,05) | Dados em seguimento |
| TAVI em VAB | SVD mod/grave: 8,1% | — | — | Dados insuficientes |
O DEDICATE (Blankenberg S et al., NEJM 2024) é o trial mais recente e pragmático, com 1.414 pacientes de baixo a intermediário risco e uso de múltiplas próteses (SAPIEN 3, Evolut PRO, ACURATE neo2). TAVI demonstrou não-inferioridade para morte + AVC em 1 ano (5,4% vs 10,0% — HR 0,92; p para NI <0,001). Foi o primeiro trial realizado inteiramente com próteses de 3ª geração, tornando seus resultados os mais representativos da prática contemporânea.[56]
| Argumento pró-TAVI | Argumento pró-SAVR |
|---|---|
| Recuperação mais rápida (alta hospitalar 1–3 dias) | Dados de durabilidade a 20+ anos estabelecidos |
| Menor sangramanto, IRA, FA nova | Menor necessidade de MPP |
| Menor mortalidade operatória imediata em alto risco | Menor PVL com técnica cirúrgica |
| Acesso femoral percutâneo (sem esternotomia) | Troca valvar mecânica simultânea possível |
| Possibilidade de TAVI-in-TAVI futura (se planejado) | Revascularização coronária simultânea mais completa |
| Preferência do paciente idoso / frágil | Correção de aortapatia associada (VAB) |
| Anatomia coronária favorável para futuros cateterismos | Menor custo hospitalar imediato (sem dispositivo THV) |
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