Da patofisiologia ao tratamento: protocolo detalhado passo a passo para avaliação da disfunção microvascular coronariana no laboratório de hemodinâmica, com foco no software CoroFlow (Coroventis/Abbott) e no algoritmo CATH CMD.
A circulação coronariana é funcionalmente dividida em três compartimentos de tamanho decrescente e funções distintas:
Em condições normais, o fluxo sanguíneo coronariano permanece constante em ampla faixa de pressões de perfusão, graças à autorregulação mediada por alterações dinâmicas no tônus arteriolar. Como a extração miocárdica de oxigênio é quase máxima em repouso, qualquer aumento na demanda de O₂ deve ser compensado por aumento proporcional no fluxo coronariano — dependência que torna o miocárdio particularmente vulnerável à disfunção microvascular.
A disfunção microvascular coronariana (CMD) possui dois endótipos patológicos principais, com implicações distintas na avaliação invasiva:
Os principais mecanismos moleculares envolvidos na CMD incluem:
~50% dos pacientes submetidos a cateterismo por suspeita de cardiopatia isquêmica têm DAC não-obstrutiva (sem estenose >50%), correspondendo a 3–4 milhões de pacientes/ano nos EUA (Samuels et al., JACC 2023). Quando realizado teste de função coronariana (CFT), 75–90% desses pacientes com ANOCA apresentam CMD, vasoespasmo microvascular, disfunção endotelial, espasmo epicárdico e/ou ponte miocárdica como causa de sintomas (Ford et al., 2019; Lee et al., 2015).
Pacientes com ANOCA tendem a ser mais jovens, com menos fatores de risco tradicionais e com predominância no sexo feminino. A meta-análise de Kelshiker et al. (EHJ 2022) com mais de 44.000 pacientes confirmou que CFR reduzido está associado a eventos cardiovasculares adversos independentemente do cenário clínico, reforçando a importância de sua avaliação rotineira. CFR <2 confere risco aumentado de morte e eventos cardiovasculares de forma independente dos fatores de risco convencionais e da carga aterosclerótica (Taqueti et al., 2017).
A investigação invasiva da microcirculação deve ser considerada em pacientes com:
| Característica | Doppler (FloWire) | Termodiluição por Bolus | Termodiluição Contínua |
|---|---|---|---|
| Índices obtidos | CFR, HMR, mMR | CFR, IMR, FFR, RRR | Q absoluto, R, MRR |
| Acurácia diagnóstica | + | + | ++ |
| Dependência do operador | Alta | Baixa-moderada | Baixa |
| Necessita hiperemia | Sim (adenosina) | Sim (adenosina) | Não (salina induz) |
| Reprodutibilidade | Moderada | Boa | Excelente |
| Disponibilidade | Limitada | Ampla | Limitada |
| Cutoffs validados | HMR ≥1.9–2.5 CFR <2.5 |
IMR >25 CFR <2.5 |
Q <200 mL/min* R >500 WU* |
| Material necessário | FloWire + Console | PressureWire X + CoroFlow | PressureWire X + Rayflow + CoroFlow |
* Cutoffs sob investigação. HMR = hyperemic microvascular resistance; mMR = microvascular minimal resistance; Q = fluxo absoluto; R = resistência; WU = Wood Units.
Embora métodos invasivos representem o padrão-ouro, testes não invasivos podem ser usados para rastreamento:
Samuels et al., JACC 2023 — o CFT completo avalia todos os mecanismos que podem afetar a circulação microvascular e epicárdica
| Diretriz | Indicação | Classe / NE | Agente | Critérios diagnósticos |
|---|---|---|---|---|
| ESC CCS 2019 | CFR/resistência guiada por fio em pacientes sem DAC obstrutiva | IIa / B | Adenosina (CMD); ACh ou ergonovina (vasoespasmo) | CMD: IMR ≥25 ou CFR <2.0; Vasoespasmo: constrição grave + angina + ECG |
| AHA/ACC 2021 | CFT invasivo para angina estável com DAC não-obstrutiva e isquemia mínima em imagem | 2a / B | Adenosina (CMD); ACh (vasoespasmo) | CMD: IMR ≥25 ou CFR <2.0; Vasoespasmo: estenose >90% + angina + ECG |
| AHA/ACC 2021 | PET MPI com quantificação de fluxo para angina estável com DAC não-obstrutiva | 2a / B | — | MFR <2 associado a risco aumentado |
| JCS 2023 | Suspeita de angina vasoespástica | I / B | ACh ou ergonovina; marcapasso temporário se ACD testada | Vasoespasmo: constrição ≥90% + angina + ECG isquêmico |
| JCS 2023 | Angina vasoespástica diagnosticada não-invasivamente, refratária à terapia | IIa / B | ACh | Idem acima |
NE = nível de evidência; CMD = disfunção microvascular coronariana; ACh = acetilcolina; MFR = myocardial flow reserve; PET MPI = PET com perfusão miocárdica. Adaptado de Samuels et al., JACC 2023 — Tabela 1.
Princípio farmacológico: A ACh age nos receptores muscarínicos (AChM3R) no endotélio e no músculo liso vascular. Em artérias saudáveis, a ACh induz vasodilatação endotélio-dependente (via NO). Na presença de disfunção endotelial e comprometimento da liberação de NO, predomina a vasoconstrição mediada pelo músculo liso. Doses mais altas de ACh podem induzir vasoconstrição por estimulação direta dos receptores muscarínicos do músculo liso — mecanismo do espasmo epicárdico.
Protocolo recomendado (Microvascular Network / Samuels et al. 2023):
| Dose | Objetivo | Velocidade de infusão | Decisão após dose |
|---|---|---|---|
| 20 μg (dose inicial) | Avaliar disfunção endotelial | Infusão lenta (2–3 min) | Registrar angiografia comparável. Se espasmo epicárdico já demonstrado → parar. Se não → prosseguir. |
| 100 μg (dose máxima padrão) | Provocar espasmo microvascular/epicárdico | Bolus rápido (30–60s) | Registrar angiografia e ECG. Em homens com forte suspeita de espasmo não demonstrado → considerar 200 μg opcional. |
| 200 μg (opcional, homens) | Maximizar detecção de espasmo epicárdico em homens | Bolus rápido | Parar imediatamente se espasmo. Administrar NTG ao final para reverter qualquer espasmo e confirmar vasodilatação epicárdica independente do endotélio. |
Definições diagnósticas validadas:
Ponte miocárdica é uma causa frequentemente subdiagnosticada de angina em ANOCA. A angiografia coronariana convencional tem baixa sensibilidade para identificar pontes, e o grau de compressão angiográfica não se correlaciona com a significância hemodinâmica.
Diagnóstico invasivo:
Avaliação hemodinâmica com dobutamina:
O FFR convencional com adenosina é inadequado para pontes miocárdicas (subestima a compressão, que é dinâmica e predominantemente sistólica). A dobutamina simula a compressão dinâmica da ponte, permitindo medir o gradiente de pressão na diástole:
Baseado em Collet et al., JSCAI 2024 e Ciaramella et al., Diagnostics 2024. Protocolo detalhado para avaliação da microcirculação com termodiluição por bolus usando PressureWire X e software CoroFlow.
Objetivo: garantir engate coaxial estável do cateter-guia no óstio coronariano, condição essencial para que todo o volume injetado de salina atinja a circulação coronariana sem spill para a aorta.
Técnica detalhada:
Vaso preferencial: Artéria Descendente Anterior (ADA/LAD)
A maioria dos dados de fisiologia coronariana em ANOCA foram obtidos na ADA, que possui a maior massa miocárdica subservida. Porém, CMD pode se desenvolver em outros territórios, e a avaliação da ADA não é necessariamente representativa de outras circulações.
Protocolo passo a passo:
Princípio: A injeção de bolus de salina em temperatura ambiente funciona como indicador de termodiluição. A salina, mais fria que o sangue, causa curvas de temperatura em formato de "U" nos termistores proximal e distal. O tempo de trânsito médio (Tmn) é derivado dessas curvas, sendo inversamente proporcional ao fluxo coronariano.
Procedimento detalhado no CoroFlow:
Após as 3 injeções em repouso, o sistema instrui a indução de hiperemia.
Indução de hiperemia máxima:
| Agente | Via | Dose | Início / Duração |
|---|---|---|---|
| Adenosina (preferencial) | IV contínua | 140 μg/kg/min | ~1-2 min / durante infusão |
| Adenosina IC | Intracoronária | 100-200 μg (ADA); 60-100 μg (ACD) | Imediato / 10-20s |
| Papaverina | Intracoronária | 10-20 mg | Rápido / 30-60s |
| Regadenoson | IV bolus | 0.4 mg | ~30s / ~10 min |
Confirmação de hiperemia:
Após confirmação da hiperemia:
O CoroFlow calcula automaticamente o CFR a partir dos Tmn obtidos nas etapas T e H. Os valores CFR e CFRnorm (normalizado pelo FFR) são exibidos no painel direito da tela.
Quando há estenose epicárdica hemodinamicamente significativa (FFR ≤0.80), utiliza-se o IMR corrigido (IMRcorr), que considera o fluxo colateral:
Resistive Reserve Ratio (RRR): calculado como a razão entre o índice de resistência basal e o IMR. Indica quantas vezes a resistência cai do repouso para a hiperemia. Tem demonstrado correlação com desfechos clínicos em SCA (Maznyczka et al., 2020).
Após salvar o registro no CoroFlow, o diagnóstico é baseado na integração de FFR, CFR e IMR. É essencial registrar o vaso avaliado, a fase do procedimento e o agente hiperêmico utilizado — facilitado por campos específicos no canto inferior esquerdo da tela do CoroFlow.
A interpretação detalhada dos dados é apresentada no módulo de Interpretação (Aba 4).
Collet et al., JSCAI 2024 — Tabela de erros do software
| Erro | Causa | Ações Corretivas |
|---|---|---|
| Slow Inject | Injeção lenta demais: >0.60s entre início do declínio e nadir de temperatura no termistor proximal |
• Usar seringa de 3 mL (não maior) • Injetar com movimento rápido e vigoroso • Garantir injeção uniforme com término definido |
| Timeout | Temperatura não retornou ao baseline em tempo (>8s) no termistor distal |
• Verificar se cateter-guia não está engajado profundamente • Confirmar que há fluxo adequado na artéria • Se estenose suboclusiva → caso pode ser inadequado para termodiluição • Verificar que baseline de temperatura = 0 • Clicar "Zero Temperature" e repetir injeção |
| Low Amp | Resposta de temperatura não atingiu o limite mínimo durante injeção (<–1°C) no termistor distal |
• Verificar engate do cateter-guia • Lavar guia com salina fresca em temperatura ambiente • Aumentar bolus ou usar salina levemente resfriada se necessário • Verificar que fio não está posicionado muito distalmente • "Zero Temperature" e repetir injeção |
| Cenário | CFR | IMR | Tmn repouso | Tmn hiperemia | Interpretação |
|---|---|---|---|---|---|
| Normal | ≥2.5 | ≤25 | Normal | Curto | Microcirculação normal |
| CMD Estrutural | <2.5 | >25 | Normal | Prolongado | Resistência microvascular elevada → remodelamento estrutural |
| CMD Funcional | <2.5 | ≤25 | Curto | Normal | Fluxo basal aumentado → capacidade vasodilatadora esgotada |
| CMD Mista | <2.5 | >25 | Variável | Prolongado | Coexistência de ambos os endótipos |
| Grupo | CFR | IMR/hMR | Mecanismo | Prognóstico |
|---|---|---|---|---|
| Grupo 1 CMD Estrutural |
<2.5 | >25 | Remodelamento microvascular estrutural. Associado a HAS, DM, dislipidemia, aterosclerose subclínica. | ⬆️ Risco elevado e consistente de eventos cardíacos a longo prazo (Boerhout et al., 2022) |
| Grupo 2 CMD Funcional |
<2.5 | ≤25 | Fluxo basal aumentado (Tmn repouso curto) com fluxo hiperêmico normal. Vasodilatação basal máxima — reserva esgotada. Mais comum em mulheres. | ⬆️ Risco aumentado em pelo menos 1 grande registro (Boerhout 2022); não confirmado em todos os estudos |
| Grupo 3 IMR elevado isolado |
≥2.5 | >25 | Tmn repouso e hiperêmico ambos prolongados. A microcirculação mantém capacidade vasodilatadora (>2.5×), mas o fluxo hiperêmico absoluto está reduzido por resistência persistente. | ❓ Significado clínico incerto em ANOCA. IMR isolado não associado a risco aumentado no registro ILIAS. Em STEMI, IMR >40 é preditor independente de mortalidade. |
| Grupo 4 Normal |
≥2.5 | ≤25 | Sem evidência de disfunção endotélio-independente. Não exclui disfunção endotelial ou vasoespasmo microvascular — requer teste com ACh. | ✅ Sem sinal de CMD estrutural ou funcional. Investigar vasoespasmo com ACh. |
A termodiluição contínua fornece fluxo absoluto (Q, mL/min) e resistência microvascular (R, WU) com unidades de medida, usando microcateter de infusão Rayflow posicionado na porção proximal da artéria coronária:
A salina infundida a 10–20 mL/min induz hiperemia máxima diretamente, dispensando adenosina. Validada contra PET com ¹⁵O-H₂O (Everaars et al., EHJ 2019). Segura com baixa taxa de eventos adversos — bradicardia transitória em ~2.6–8.1% dos casos, revertendo com interrupção da infusão.
Devido à forte associação entre fatores de risco cardiovasculares, aterosclerose e CMD, o controle agressivo de comorbidades é um objetivo prioritário:
| Classe | Drogas | Mecanismo na CMD | Evidência |
|---|---|---|---|
| β-bloqueadores vasodilatadores | Nebivolol, Carvedilol | Nebivolol: ativa síntese de NO, inibe ET-1 → melhora CFR. Carvedilol: melhora função microvascular endotélio-dependente. | Primeira linha |
| Bloqueadores de canal de cálcio | Amlodipina, Verapamil, Diltiazem | Relaxamento de VSMC por bloqueio de influxo de cálcio. Reduzem consumo de O₂ miocárdico. | ChaMP-CMD demonstrou benefício clínico de amlodipina em CMD. EDIT-CMD: diltiazem sem benefício em CMD (mas reduziu espasmo epicárdico). |
| Ranolazina | Ranolazina | Inibe corrente tardia de Na⁺ → reduz sobrecarga de Ca²⁺ e Na⁺ intracelular. Melhora capacidade de exercício. | ChaMP-CMD demonstrou benefício. Melhora CFR quando combinada com terapia de primeira linha. |
| IECA/BRA | IECA, BRA | Melhora CFR; pode ser combinado com β-bloqueadores e BCC. | Recomendado |
| Nitratos | Nitroglicerina, ISMN | Ação predominantemente epicárdica. Efeito limitado na microcirculação. | Uso cauteloso — podem piorar sintomas se CMD funcional predominante |