O Estado Real da Evidência em Cardiologia
A cardiologia é, paradoxalmente, a especialidade com maior volume de ensaios clínicos randomizados, mais meta-análises publicadas e mais diretrizes sistematizadas do mundo. Ainda assim, quando analisamos a qualidade da evidência que sustenta nossas recomendações cotidianas, o panorama é surpreendentemente modesto.
A análise de Fanaroff et al. (JAMA, 2019), que revisou 2.740 recomendações de 23 diretrizes ACC/AHA e 10 diretrizes ESC ao longo de uma década, revelou uma realidade contrastante: apesar do aumento substancial no número de ensaios clínicos publicados, a proporção de recomendações com Nível A de evidência não apenas estagnou — em algumas categorias, declinou levemente entre 2008 e 2018. Isso reflete não falha da pesquisa, mas a expansão das diretrizes para áreas clínicas onde realizar ECRs é complexo, dispendioso ou eticamente questionável.
O estudo de Qureshi et al. (J Gen Intern Med, 2025), analisando 1.846 recomendações de diretrizes de sociedades médicas americanas entre 2019 e 2023, encontrou que 73% das recomendações fortes (linguagem de "deve ser feito") eram suportadas por evidência de certeza moderada ou baixa — uma "discordância" que compromete diretamente a confiança do clínico no documento normativo.