Fisiologia Coronariana Invasiva
Avaliação Isquêmica e Microvascular
Técnicas, indicações, fisiopatologia, protocolos, achados, limitações e evidências para avaliação fisiológica completa no laboratório de hemodinâmica — da estenose epicárdica à disfunção microvascular.
Indicações para Avaliação Fisiológica Invasiva
Classes de recomendação conforme ACC/AHA/SCAI 2021, ESC CCS 2024 e AHA Scientific Statement 2025.
Avaliação fisiológica invasiva com FFR ou iFR em pacientes com angina ou equivalente anginoso, isquemia não documentada objetivamente, e estenoses angiograficamente intermediárias (40–70% de estenose de diâmetro) para guiar decisão de ICP. O não uso de FFR/iFR em estenoses <70% com isquemia não documentada é Classe 3: Sem Benefício (Nível B-R).
Indicações Específicas
- → Estenose de diâmetro 40–70% — zona de incerteza entre necessidade de revascularizar e segurança de diferir
- → Discordância entre anatomia angiográfica e sintomas clínicos
- → Doença multivascular — identificar lesões culpadas e priorizar revascularização
- → Lesões em tronco de coronária esquerda não protegido (interpretação cautelosa)
- → Lesões em tandem ou seriadas — pullback para identificar lesão culpada hemodinamicamente
- → Avaliação pós-ICP — FFR pós-angioplastia <0,88 associado a maior TVF
- → SCA multivascular — fisiologia para lesões não-culpadas (Classe 1 ACC/AHA/SCAI ACS 2025)
Medições de CFR e/ou IMR em pacientes sem DAC obstrutiva com dor torácica persistente. Teste de provocação com acetilcolina para diagnóstico de espasmo epicárdico e microvascular.
A ESC CCS 2024 concedeu ao QFR Classe I, Nível B. O ACC/AHA/SCAI mantém FFR e iFR como modalidades de primeira linha. A discordância regional é parcialmente explicada pelo fracasso do QFR em atingir não-inferioridade frente ao FFR no FAVOR III Europe (2024). O SCAI 2026 Expert Roundtable antecipa incorporação de recomendações nas próximas atualizações das diretrizes norte-americanas.
FFR — Reserva de Fluxo Fracionada
Padrão-ouro da fisiologia coronariana invasiva. Classe 1 / A — ACC/AHA/SCAI & ESC 2024
FFR é definida como a razão entre o fluxo sanguíneo máximo em uma artéria estenótica e o fluxo máximo teórico na ausência da estenose. Durante hiperemia máxima, a resistência microvascular atinge seu nadir e torna-se relativamente constante, permitindo que a pressão seja usada como substituto direto do fluxo (Lei de Ohm coronariana).
Pd = pressão coronariana distal à estenose | Pa = pressão aórtica proximal
- Equipamento: Cateter guia 5–7F sem orifícios laterais. Fio-guia com sensor de pressão (Abbott PressureWire X, Philips OmniWire, Boston COMET II, Insight TruePhysio, ACIST Navvus II).
- Zeragem e equalização: Sensor zerado ao nível da válvula aórtica; equalizado com pressão aórtica na ponta do cateter-guia. Confirmar Pa = Pd antes de avançar.
- Posicionamento: Terço distal da artéria, pelo menos 20–30 mm distal à lesão. Cautela em vasos tortuosos ou artérias distais menores.
- Nitrato IC: 100–200 µg antes de cada medição para eliminar espasmo epicárdico.
- Hiperemia: Adenosina IV 140 µg/kg/min (via periférica/central) por ≥ 2 min para estado estacionário. Alternativa: papaverina IC (10–15 mg VE; 8–12 mg VD).
- Medição: Média dos valores mais baixos de 3 batimentos consecutivos durante hiperemia máxima.
- Verificação de drift: Retirar sensor ao cateter-guia. Drift > ±0,02 ou > 3 mmHg → re-equalização e repetição obrigatória.
- ✗ Adenosina obrigatória → dispneia, bradicardia transitória, broncospasmo; prolonga procedimento
- ✗ Hiperemia submáxima pode superestimar FFR (falso negativo)
- ✗ Drift de pressão, ventriculização aórtica, amortecimento de onda — artefatos em ~1/3 dos rastreamentos
- ✗ Interdependência hemodinâmica em lesões seriadas — FFR proximal subestimado pela lesão distal
- ✗ Não avalia microcirculação isoladamente; CMD pode elevar FFR falsamente
- ✗ Custo do fio de pressão; risco de dissecção/perfuração em anatomia complexa
iFR & Índices Não-Hiperêmicos
Sem adenosina, sem desconforto — Classe 1 / A — ACC/AHA/SCAI & ESC 2024 — mas com sinal de mortalidade a 5 anos não resolvido.
iFR mede a razão Pd/Pa durante o período livre de ondas — janela diastólica específica onde a resistência microvascular é naturalmente mínima e estável, sem agentes hiperêmicos.
Fim: 5 ms antes do final da diástole
iFR = Pdwave-free / Pawave-free
Ensaios de Validação (1–2 anos)
Meta-análise estudo-nível (Eftekhari et al., Eur Heart J 2023) — iFR-SWEDEHEART + DEFINE-FLAIR: iFR-guided revascularização associada a maior mortalidade por todas as causas (8,3% vs 6,3%; HR 1,34; IC95% 1,08–1,67) e maior MACE (21,5% vs 18,6%; HR 1,18; IC95% 1,04–1,34).
DEFINE-FLAIR 5 anos isolado (Escaned et al., JAMA Cardiology 2025): mortalidade por todas as causas significativamente maior com iFR (HR 1,56; IC95% 1,16–2,09), impulsionada por morte cardiovascular. Curvas de Kaplan-Meier divergem progressivamente a partir de 2 anos.
Contraponto: Seguimento de 5 anos do iFR-SWEDEHEART isolado não demonstrou diferença significativa (HR 1,09; IC95% 0,90–1,33). Análise de registro SWEDEHEART confirmou maior risco de morte por qualquer causa (RR 1,34), mas sem diferenças em morte cardiovascular confirmada, revascularização não planejada ou IM não fatal.
Estado atual: Discrepância entre estudos sem explicação mecanicista. As diretrizes atuais ainda endossam ambas as modalidades como equivalentes — situação que requer reavaliação crítica.
| Índice | Ponto de Corte | AUC vs FFR | Observação |
|---|---|---|---|
| Pd/Pa repouso | ≤ 0,91–0,92 | 0,75–0,93 (vs FFR) | Mais simples; sensib. 64,7%, especif. 75,0% quando CFR é usado como referência (Hwang et al., JACC CI 2017) — desempenho menor quando o padrão-ouro é o FFR |
| dPR | ≤ 0,89 | ~0,84 | Janela diastólica fixa; correlaciona bem com iFR |
| RFR | ≤ 0,89 | ~0,84 | Ciclo cardíaco completo; sem diferença clínica vs iFR |
| cFFR | ≤ 0,83 | 0,95 | Contraste IC substitui adenosina; maior correlação com FFR dentre NHPRs; dados de desfechos limitados |
Fisiologia Derivada de Angiografia
QFR, vFFR e FFRangio — sem fio de pressão, sem adenosina, com algoritmos computacionais sobre angiografia convencional.
Plataformas ADP utilizam modelos de fluxo computacional sobre angiogramas padrão (2 projeções ortogonais) para estimar FFR, eliminando fio de pressão e agentes vasodilatadores. Potencialmente reduzem custo, tempo de procedimento e irradiação.
Em SCA de alto risco: FFRangio correlação com FFR (R=0,76) superior ao QFR (R=0,61), com sensibilidade 91%, especificidade 100%, acurácia 96,8% (Skalidis et al., Int J Cardiol 2024). Meta-análise: AUC de ADP superior aos NHPRs para estimar FFR por fio (0,95 vs 0,85).
- ✗ Não validadas em bifurcações, tronco de coronária esquerda, enxertos de bypass, lesões ostiais severas
- ✗ Requerem duas projeções angiográficas ortogonais de boa qualidade (exceto μQFR single-view)
- ✗ μQFR em calcificação severa: sensibilidade 75%, especificidade 77,8%, VPN 57,1% (DIAMOND study)
- ✗ A maior taxa de revascularização observada com QFR pode offsetar economias procedimentais
- ✗ Sem pullback validado para avaliação de padrão focal/difuso
Pullback Pressure Gradient (PPG)
Doença focal vs difusa — determinante crítico do benefício da ICP e dos desfechos pós-procedimento.
O PPG quantifica o padrão de distribuição longitudinal da resistência epicárdica ao invés das perdas totais de pressão. Incorpora tanto a focalidade da estenose quanto a extensão do vaso afetado, fornecendo avaliação padronizada em um contínuo de doença predominantemente focal a predominantemente difusa.
MaxPPG₂₀mm = variação máxima de FFR em 20 mm de vaso
ΔFFRvessel = diferença de pressão entre óstio e vaso distal
Doença funcional = comprimento com queda de FFR ≥ 0,0015/mm
Interdependência Hemodinâmica em Lesões Seriadas
Quando o sensor é posicionado entre duas lesões, a lesão distal prejudica o fluxo máximo — resultando em FFR falsamente elevado para a lesão proximal. Esta interferência é mais pronunciada com FFR (hiperemia) do que com iFR (período wave-free) e piora conforme as lesões se tornam mais graves.
CFR, IMR & Microcirculação
Da fisiopatologia ao diagnóstico de endotipos de INOCA/ANOCA — reserva de fluxo, resistência microvascular e teste de acetilcolina.
Endotélio-independentes: Respostas atenuadas à papaverina, adenosina ou dipiridamol → relaxamento prejudicado de VSMCs. Aumento de endotelina-1, hipersensibilidade a vasoconstritores, atividade simpática anormal.
CFR (Termodiluição bolus) = Tmn repouso / Tmn hiperêmico
Primeiro índice desenvolvido especificamente para avaliar a microcirculação independente da doença epicárdica.
Correção de Yong (na presença de estenose epicárdica):
IMRcorr = Pa × Tmn × ([1,35 × Pd/Pa] − 0,32)
Protocolo Padronizado
- Cateter guia 5–7F sem orifícios laterais.
- Fio-guia de pressão-temperatura com sensor no segmento distal.
- Nitrato IC (100–200 µg) antes de cada medição.
- Tmn repouso: 3 injeções manuais de 4 mL de salina à temperatura ambiente.
- Adenosina IV (140 µg/kg/min) para hiperemia sustentada.
- Medir Pa, Pd e Tmn hiperêmico durante hiperemia estacionária.
- IMR = Pd × Tmn. Se estenose epicárdica: aplicar fórmula de Yong.
Vantagens vs CFR
- ✓ Específico para microcirculação — independente de DAC epicárdica
- ✓ Independente de hemodinâmica de repouso
- ✓ Mensurável simultaneamente ao FFR
- ✓ Maior reprodutibilidade (r=0,957)
Limitações
- ✗ Tmn por injeção manual — variabilidade
- ✗ Varia com posição do sensor
- ✗ Valores de corte debatidos (18 vs 25)
- ✗ Operador-dependente
Termodiluição contínua: Mede fluxo coronariano absoluto sem injeções manuais. Técnica de "duas corridas": infusão de salina a 10 mL/min repouso e 20 mL/min hiperemia — elimina necessidade de adenosina IV adicional.
MRR (Reserva de Resistência Microvascular): MRR = Rµ(repouso) / Rµ(hiperemia). No contexto de STEMI: MRR e IMR são preditores independentes de mortalidade ou hospitalização por IC, com efeito sinérgico. MRR baixa é forte preditora de morte cardíaca (Eerdekens et al., JACC 2024).
Monitorar ECG contínuo, PA e sintomas em cada dose
Endotipos de INOCA e Terapia Estratificada
Tabela Comparativa de Modalidades
Resumo integrado — recomendações de diretrizes, acurácia diagnóstica, desfechos e características procedimentais (2024–2026).
| Modalidade | Classe/NE | AUC / Acurácia | Desfechos Chave | Características |
|---|---|---|---|---|
| FFR | 1/A ACC/AHA/SCAI 1/A ESC | AUC 0,78–0,85 vs PET; acurácia 93–95% | ↓MACE e IM vs angiografia/OMT; NNT 17 a 11,2a; ICER $1.600/QALY | Fio pressão + adenosina IV; padrão-ouro |
| iFR | 1/A ACC/AHA/SCAI 1/A ESC | AUC 0,74–0,86 vs PET/CFR | Não-inferior FFR em 1–2a; possível ↑mortalidade 5a (HR 1,34–1,56) | Fio pressão; sem adenosina; pullback seriadas |
| Pd/Pa, dPR, RFR | Razoável | AUC 0,75–0,93 vs FFR | Desfechos similares a FFR/iFR em registros | Fio pressão; sem adenosina; rápido |
| cFFR | Não endossado | AUC 0,95 vs FFR | Dados de desfechos limitados | Fio pressão + contraste IC |
| QFR | 1/B ESC Não endossado ACC/AHA | AUC 0,987; sens 87,2%, esp 96,4% | FAVOR III China: −35% MACE; FAVOR III Europe: NÃO não-inferior a FFR | Sem fio/adenosina; 2 projeções; não bifurcações |
| vFFR | IIb/C ESC | AUC 0,86; acurácia 80,9% | Dados de desfechos limitados | Sem fio/adenosina; menor correlação em SCA |
| FFRangio | IIb/C ESC | R=0,76 vs FFR em SCA; acurácia 96,8% | PROVISION: não-inferior revascularização; ALL-RISE em andamento | Sem fio/adenosina; melhor desempenho em SCA |
| μQFR | Não endossado | AUC 0,813; VPN 57,1% em calcificação | Em investigação (FLAVOUR II) | Single-view; IA; menor acurácia em calcificação |
| CFR / IMR | IIa/B ESC 2a/B ACC/AHA | IMR: r=0,957 reprodutibilidade | CFR anormal: HR 3,78 mortalidade; IMR+CFR: até 45% morte CV/IC a longo prazo | Fio pressão-temperatura + adenosina; INOCA |
| MRR | Em investigação | — | Preditor de mortalidade e IC pós-STEMI (JACC 2024) | Termodiluição contínua; sem injeção manual |
Populações Especiais e Controvérsias
Cenários clínicos que exigem adaptação da estratégia fisiológica padrão.
Meta-análise 2025 (Calderone et al.): 11 RCTs, 10.150 pacientes — revascularização completa em SCA reduziu mortalidade por todas as causas (RR 0,86; IC95% 0,74–1,00) e mortalidade cardiovascular em 26%, com benefício particular em diabéticos. Em deferência por FFR em SCA: o limiar ótimo de FFR é mais elevado que em pacientes estáveis — IAMSST com FFR não-isquêmico ainda exibe as maiores taxas de eventos.
FFR e iFR podem ser usados em lesões de TCE, mas desafios técnicos e doença a jusante requerem interpretação cuidadosa. IVUS/OCT recomendados para guia procedimental em ICP de TCE (Classe 1/A). Plataformas ADP não validadas em bifurcações, TCE ou enxertos de bypass. Em bifurcações, avaliação fisiológica é recomendada antes, durante e após intervenção — atenção ao "branch steal effect" que pode subestimar isquemia em ramos laterais (Lunardi et al., JACC 2022).
Mesmo com FFR >0,80, há aumento incremental de desfechos adversos baseado em características do paciente e da placa (Cho et al., JACC CI 2020). Pacientes com alto risco trombótico: MACCE e morte de ~50% e ~30%, respectivamente, aos 5 anos. Alto delta-FFR (>0,06) identificado como preditor hemodinâmico de SCA futura — lesões epicárdicas com grandes perdas de pressão parecem estar em maior risco de ruptura de placa.
ICP pode ser preferida a CABG na DRC pelo menor risco de IRA. Estratégias de minimização de contraste são especialmente relevantes — plataformas ADP que reduzem uso de contraste podem ter papel nesta população, embora evidências específicas sejam escassas. Duração mínima de DAPT em DAC estável: 6 meses (3 meses em alto risco de sangramento).
Referências Selecionadas
Diretrizes, ensaios e declarações científicas — 2017–2026.
- 1Bangalore S et al. Evidence-Based Practices: Invasive Epicardial Coronary Physiologic Assessment.
- 2Lawton JS et al. 2021 ACC/AHA/SCAI Guideline for Coronary Artery Revascularization.
- 3Virani SS et al. 2023 AHA/ACC/ACCP/ASPC/NLA/PCNA Guideline — Chronic Coronary Disease.
- 4Rao SV et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline — Acute Coronary Syndromes.
- 5Collet C et al. FFR-Guided PCI vs Medical Therapy for Stable CAD: FAME 2 Long-Term (11.2 years).
- 6Yin F et al. Updated Meta-Analysis of FFR vs Coronary Angiography for Guiding PCI.
- 7Götberg M et al. Instantaneous Wave-free Ratio versus FFR to Guide PCI (DEFINE-FLAIR / iFR-SWEDEHEART).
- 8Eftekhari A et al. iFR vs FFR and 5-Year Mortality: iFR SWEDEHEART and DEFINE FLAIR.
- 9Escaned J et al. Revascularization Guided With FFR or iFR: 5-Year Follow-Up of DEFINE FLAIR.
- 10Andersen BK et al. Quantitative Flow Ratio vs FFR for Coronary Revascularisation (FAVOR III Europe).
- 11Xu B et al. Angiographic QFR-Guided Coronary Intervention (FAVOR III China).
- 12Hu X et al. μQFR vs IVUS to Guide PCI (FLAVOUR II).
- 13Bednarek A et al. Impact of CAD Patterns Assessed With PPG on Clinical Outcomes: Meta-Analysis.
- 14Kelshiker MA et al. Coronary Flow Reserve and Cardiovascular Outcomes: Systematic Review and Meta-Analysis.
- 15Hong D et al. Prognostic Impact of CMD According to Invasive Physiologic Indexes.
- 16Bergmark BA et al. Multicenter Prospective Assessment of CMD: FlowLab Study.
- 17Eerdekens R et al. Prognostic Value of Microvascular Resistance Reserve After PCI in MI.
- 18Calderone D et al. Complete vs Culprit-Only PCI in ACS: Meta-Analysis of 10,150 subjects.
- 19Carvalho PEP et al. The Pullback Pressure Gradient: Focal From Diffuse CAD.
- 20Suda A et al. Coronary Functional Abnormalities in Patients With Angina and Nonobstructive CAD.